Aberto edital para combate ao desmatamento na Amazônia


Por Renata Azevedo Moreira
Há pelo menos um ano, a conexão entre abrir os olhos e despertar, antes tão certeira, parece não fazer mais lá tanto sentido. Consideravelmente privadas da criatividade que vem dos encontros fortuitos, das conversas inesperadas na fila do self-service ou das surpresas que só a rua pode trazer, as pessoas permanecem entre quatro paredes por tempo indeterminado.
As fontes de novidades vão ficando mais escassas e, com a restrição de estímulos, nosso cérebro parece perder sua capacidade de elaborar grandes ideias. Somadas a isso, estresse e fadiga crônicas podem acinzentar até os dias mais ensolarados. Nada mais normal, afinal, já faz tempo demais. Mas é preciso continuar e ninguém sabe até quando. Então, o que fazer para encontrar inspiração no dia-a-dia que se repete?
No início do século 20, o filósofo Friedrich Nietzsche dizia em notas publicadas postumamente que “nós temos a arte para não morrer perante a verdade”. Uma resposta lógica à inércia criada pela realidade atual seria aproveitar o privilégio de poder seguir vivendo, um direito que a muitos vem sido negado durante esta pandemia. Mas como? Para isso, nenhuma aliada é mais infalível do que a arte.
Não é difícil perceber o quanto a presença artística é essencial: assistimos a cada vez mais séries e filmes, ouvimos mais músicas e lemos mais livros do que em tempos que costumávamos chamar de normais. Apesar de perder investimentos governamentais, instituições artísticas, coletivos e associações culturais seguem quebrando a cabeça para desenvolver programações online e continuar nos proporcionando experiências criativas e criadoras.
Porque afinal, uma outra vida é necessária, e ela precisa de purpurina, sonhos e portas abertas. Menos teto e mais céu. E mais do que nunca, para ter acesso à outra vida, a gente precisa de arte.
Se a vida é acordar, abrir os olhos, tomar café, se sentar e trabalhar, a outra vida é a mesma coisa, porém se move pela busca de gerar e apreciar arte em qualquer um desses momentos. Se a vida virou uma bolha, a outra vida ultrapassa suas bordas e eclode como um vulcão que não respeita as margens da terra. E mesmo que a gente não ache possível, isso pode acontecer diariamente e em qualquer lugar, inclusive na nossa própria casa. Basta prestar atenção.
É nisso que acredita André Gravatá, da Sorver Versos, uma iniciativa cuja principal missão é justamente aproximar arte e vida. “Imagine que você está perto da sua janela e fica ali alguns minutos, realmente presente, focado no que está acontecendo. Não precisa escrever nada com palavras, este instante já é um poema”, diz André:
“Fazer arte é como respirar, acordar, dar uma caminhada. É uma maneira de estar mais íntimo da vida”.
A vida, como a arte, é o que extrapola. Vida é excesso, movimento, é agente motor de transformações e evoluções. Serena Labate, parceira de André na arte e também na vida, entende que sobreviver a este momento requer identificar o extraordinário que brota do quotidiano. E se não der para encontrá-lo, inventá-lo. Serena associa a prática artística na pandemia a um ritual quase meditativo. Ela explica que às vezes sente uma energia diferente em um dia, ou que aquela data merece algo de especial, e decide que é hora de celebrar o ano novo.
“Por que nós só podemos cultivar a renovação uma vez ao ano? Quando a gente sente que um dia tem cara de réveillon, se veste de branco, prepara uma refeição diferente e renova o olhar para o que está vivendo”, explica.
O banal vira incrível, e a rotina de repente desaparece.
Serena esclarece que o
dever da arte não é nos ajudar a superar as dificuldades da vida, e insiste que
para isso precisamos de mudanças estruturais, políticas públicas e justiça
social. Todas estas ações podem fazer parte de práticas artísticas, como é o
caso de modalidades que incluem intervenções públicas, arte socialmente
engajada ou artivismos. Mas para ela, o mais importante é que a arte tem o
poder de ressignificar nosso olhar para a vida, ou segundo André, nos abre a
dúvidas, perguntas e inquietações – o que o poeta Fernando Pessoa chamaria de desassossegos.
Assim, para além de considerar experiências artísticas como estratégias de sobrevivência,
podemos também buscar propostas que nos incomodem, provoquem e ajudem a
cultivar este desassossego que fomenta a vida.
Considerar as ligações
inseparáveis entre vida e arte é, em si, uma prática que exige insistência e
não-conformismo. Demanda acreditar que artistas do quotidiano também podem criar
e que além de dom, carreira e reflexão, arte é também necessidade básica que precisa
ser vivenciada para florescer. Lembre-se de quando era criança e, por algum
motivo, não podia brincar lá fora. O que você fazia? Como se conectar com
aquela outra vida? Afaste os móveis e abra espaço na sala, explore materiais
novos, crie tempo para manusear o que você já tem de uma forma diferente. Inspire
e expire bem rápido, preste atenção na ponta do seu dedo mindinho, fale com
outra voz. Olhe para as coisas de um jeito novo, repare em detalhes que não
existiam, abra o dicionário e pronuncie as palavras mais estranhas bem devagar.
Você vai ver que o que emerge pode até não ser arte, mas certamente é vida.
Para inspirar:
– Elastica
– Google Arts and Culture*
*Conta com grande parte de acervos de museus como MAM, Inhotim e MASP
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