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Muitas ONGs nascem da iniciativa de uma pessoa capaz de mobilizar voluntários, atrair doadores e transformar uma causa em trabalho permanente. Essa centralidade, decisiva nos primeiros anos, pode se tornar uma fragilidade quando decisões, relacionamentos e conhecimentos permanecem concentrados no fundador. O último Informe dos Indicadores GIFE de Governança 2023–2024 mostra que somente 44% das 41 organizações que responderam voluntariamente ao levantamento possuíam um processo estabelecido para suceder o principal executivo.
A falta de planejamento costuma ficar evidente quando essa liderança adoece, decide se afastar ou morre. Sem uma definição prévia de responsabilidades, a organização pode enfrentar dificuldades para movimentar recursos importantes, assinar contratos, prestar contas a financiadores e manter a equipe organizada. Também cresce o risco de disputas entre familiares, conselheiros e funcionários, além da perda de doadores que mantinham uma relação pessoal com o fundador.
Como exemplo de uma preparação antecipada, temos a Pastoral da Criança. Zilda Arns deixou a coordenação nacional em 2008 e participou da formação da Irmã Vera Lúcia Altoé para assumir o posto. Quando a fundadora morreu inesperadamente no terremoto do Haiti, em 2010, a gestão cotidiana já havia sido transferida e contava com o apoio de conselhos e coordenações estaduais. A continuidade do trabalho demonstrou que preservar o legado de uma liderança depende de transformar sua experiência em parte da estrutura da instituição.
Casos recentes mostram como essa transição ocorre na prática. No Cacique de Ramos, Bira Presidente permaneceu no comando da instituição cultural desde a fundação, em 1961, até sua morte, em junho de 2025. No mês seguinte, a filha Karla Marcely, que já atuava havia sete anos na administração, assumiu a presidência. O Projeto Axé passou por movimento semelhante após a morte de seu fundador e presidente, Cesare de Florio La Rocca, em 2021. A liderança foi assumida inicialmente pela cofundadora Ená Benevides e, em 2023, a direção passou para Rossimara Cunha, profissional formada dentro da própria organização.
De acordo com especialistas do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), o planejamento sucessório deve começar antes de qualquer emergência, a partir de um diagnóstico que identifique funções, decisões e relações ainda concentradas no fundador. Entre as medidas recomendadas estão o fortalecimento do conselho, a definição de critérios para a escolha da nova liderança, a delegação gradual de responsabilidades e a preparação de profissionais para assumir posições estratégicas. O processo também deve prever a revisão do estatuto e das políticas internas, além da transferência das relações mantidas com financiadores, parceiros, voluntários e comunidades atendidas. O desafio principal nessa tarefa é construir uma estrutura capaz de preservar a missão e continuar funcionando quando a pessoa que deu origem à organização já não estiver presente.
Segundo uma análise feita pelo IDIS, um dos principais obstáculos para a longevidade de uma organização e um processo adequado de sucessão é a chamada “Síndrome do fundador”, definida da seguinte forma em um artigo publicado no Nexo Jornal, no dia 23/11/2024:
“Esse fenômeno, caracterizado pela dificuldade do fundador de uma organização em delegar responsabilidades ou preparar novas lideranças, pode enraizar uma dependência excessiva em sua figura central. Isso afeta a cultura organizacional, tornando a transição da liderança ainda mais desafiadora. A síndrome também compromete diretamente os processos decisórios, muitas vezes engessando a capacidade de inovação da instituição.”
Os reflexos de uma sucessão mal planejada ou antecipada podem aparecer na forma de disputas judiciais, perda de doadores após a saída do fundador, crises de governança, paralisação de projetos e divisão entre grupos internos. Embora seja uma organização religiosa e não uma ONG tradicional, a Igreja Bola de Neve (associação religiosa sem fins lucrativos) trata-se de uma entidade do terceiro setor cuja sucessão se tornou pública após a morte do fundador, Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, conhecido como “Apóstolo Rina” em novembro de 2024.
Segundo reportagens da época, a morte repentina do fundador desencadeou uma disputa entre a viúva, Denise Seixas, que alegava ter direito estatutário à sucessão, e a administração que transferiu a presidência para outro dirigente. O conflito resultou em ações judiciais, disputas sobre a governança e exposição pública de divergências internas. O caso é frequentemente citado como exemplo dos riscos da dependência excessiva da figura do fundador e da falta de consenso sucessório.
Para especialistas do IDIS, o que diferencia os casos bem-sucedidos dos que terminam em disputa não é apenas a existência de um sucessor indicado, mas o tempo dedicado a construir sua legitimidade antes que a emergência chegue.
(Redação ONG News)
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