Mobilização promove ações ambientais em comunidades de São Paulo


Nem todas as habilidades desenvolvidas por um estudante aparecem no boletim ou em certificados. Cada vez mais, experiências vividas fora da sala de aula, como o voluntariado, passam a integrar o chamado “currículo invisível” — uma trajetória construída a partir de competências como liderança, comunicação, responsabilidade e empatia, que revelam o perfil do jovem e podem se tornar diferenciais em processos seletivos de universidades internacionais.
Como parte desse movimento, o voluntariado estudantil ganha espaço nas escolas como uma ferramenta de formação integral, ao proporcionar aos jovens experiências práticas de aprendizado, troca e desenvolvimento de novas competências. Entre as iniciativas que podem ser implementadas em escolas bilíngues está o ensino voluntário de inglês entre estudantes, uma prática que transforma o idioma em uma ponte entre diferentes realidades e acompanha uma tendência da educação internacional: formar jovens capazes de unir excelência acadêmica, protagonismo e responsabilidade social.
Apesar de o Brasil contar com mais de 57 milhões de pessoas que já realizaram trabalho voluntário, segundo pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), em parceria com o Datafolha, adolescentes ainda têm participação reduzida nessas iniciativas sociais.
Por esse motivo, unir o ensino de inglês ao voluntariado cria uma oportunidade para que os próprios estudantes transformem o conhecimento adquirido em sala de aula em uma experiência prática de impacto social. É o caso da Cidadão Pró-Mundo (CPM), ONG que mobiliza mais de 1.450 voluntários para ensinar inglês gratuitamente a estudantes de escolas públicas e bolsistas da rede privada.
Em 2025, a organização atendeu mais de 2.350 estudantes, distribuídos em 284 turmas. Entre os alunos atendidos, 88% possuem renda familiar entre um e quatro salários mínimos e 57% são pretos ou pardos. Além de ampliar o acesso ao ensino da língua inglesa, a iniciativa transforma o conhecimento do idioma em uma ferramenta de participação social e desenvolvimento pessoal para os próprios voluntários que, nesse caso, também são estudantes.

Alunos do Ensino Médio com 16 anos ou mais podem atuar como professores voluntários de inglês. Na CPM, esses jovens são chamados de volunteachers e passam por um processo seletivo antes de começar a atuar. Depois, recebem formação síncrona e assíncrona, material didático certificado, planos de aula e acompanhamento da equipe pedagógica ao longo do semestre.
Segundo Sarah Morais, diretora-executiva da Cidadão Pró-Mundo, os voluntários não começam a dar aulas sozinhos. A preparação inclui treinamento, materiais e acompanhamento pedagógico permanente, garantindo que tenham suporte tanto na preparação quanto durante a atuação em sala de aula.
O modelo permite que os jovens desenvolvam segurança para ensinar, ao mesmo tempo que aprimoram o próprio domínio do idioma e habilidades de comunicação, planejamento e liderança.
“Ao vivenciar o desafio prático de preparar aulas, explicar conteúdos, lidar com diferentes perfis de alunos e acompanhar sua evolução, esses estudantes desenvolvem competências como responsabilidade, comunicação, oratória, escuta ativa, flexibilidade cognitiva e empatia”, explica Sarah Morais.
Além da atuação em sala de aula, os volunteachers também trocam experiências com outros estudantes que participam do programa e se revezam nas aulas. Para Sarah, esse processo de conexão e reflexão é fundamental para que o jovem compreenda o impacto de sua atuação e desenvolva maior autoconhecimento, autorregulação, senso de propósito e autoeficácia — competências importantes para a formação de lideranças.
Ao assumir o papel de voluntário, o estudante desenvolve competências socioemocionais e acadêmicas que dificilmente seriam adquiridas apenas no ambiente escolar. A experiência fortalece a capacidade de comunicação, a oratória e a habilidade de explicar conteúdos complexos de forma acessível, além de ampliar a escuta ativa, a flexibilidade cognitiva, o senso de responsabilidade e o compromisso com a comunidade.
Para muitos estudantes, o contato com o voluntariado representa também uma primeira experiência concreta de liderança e ensino. A parceria entre a CPM e a Escola Eleva mostra como o voluntariado pode integrar o projeto pedagógico das escolas e beneficiar a comunidade escolar.
“A parceria está no segundo ano e tem contribuído muito, não só para as pessoas que têm vindo aprender, mas também para os nossos alunos e para a nossa comunidade escolar”, comenta Isabela Pedrosa, professora da Eleva.
Para Antonia Guedes, aluna da instituição, a experiência representa uma oportunidade de assumir o papel de educadora e retribuir algo que sempre fez parte de sua trajetória.
“Para mim, educação sempre foi uma coisa muito importante. Minha família tem vários educadores e sempre me incentivou muito. Então, poder me colocar nesse papel de lecionar para as pessoas, que é uma coisa que, para mim, sempre fizeram, e poder retribuir para alguém como educadora foi muito importante. A Escola Eleva proporcionou essa oportunidade”, complementa Antonia.
Além da contribuição social, os próprios estudantes reconhecem ganhos pessoais e acadêmicos decorrentes da experiência.
“Eu acho que o meu desenvolvimento pessoal vem de conhecer várias pessoas e ver a gente ajudando elas, o impacto que o inglês tem na vida delas, porque muda muito. E essa proximidade que a gente cria com os alunos, para o meu desenvolvimento acadêmico, eu até penso mais sobre o meu inglês, por que eu estou ensinando, por que eu falo o que eu falo. Então, me ajuda em vários ângulos da minha vida a melhorar em muitos sentidos”, afirma Rafael, também aluno da Eleva.
Essas vivências têm sido cada vez mais valorizadas em processos de admissão de universidades internacionais. A experiência de voluntariado permite que o estudante não apenas apresente uma atividade extracurricular, mas também demonstre competências desenvolvidas a partir de situações concretas, como liderança, protagonismo, responsabilidade social e comunicação.
Para Sarah Morais, essa dimensão prática é justamente um dos diferenciais da experiência. Segundo ela, o foco da CPM é oferecer aos estudantes uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, acadêmico e social que possa integrar sua trajetória, e não apenas uma atividade para ser adicionada ao currículo.
“Para application, é fundamental relatar uma experiência significativa com voluntariado, contar suas próprias experiências e o que aprendeu com elas, o tipo de situação que apenas vivendo na pele você consegue desenvolver”, afirma Sarah.
Nesse sentido, o chamado “currículo invisível” não está apenas na atividade realizada, mas na capacidade do estudante de compreender e comunicar o que aprendeu com aquela experiência. O voluntariado passa, assim, a complementar a formação acadêmica ao colocar o jovem diante de situações que exigem autonomia, responsabilidade e capacidade de adaptação.
A transformação acontece dos dois lados. Para quem aprende, o inglês amplia oportunidades educacionais e profissionais. Para quem ensina, a experiência fortalece competências socioemocionais e acadêmicas.
Segundo Sarah Morais, os próprios voluntários relatam ganhos como maior confiança, aprimoramento do inglês, desenvolvimento da capacidade de explicar conteúdos com clareza e uma compreensão mais ampla sobre o impacto social da educação.
A troca entre estudantes de diferentes realidades também contribui para que os volunteachers compreendam, na prática, como o acesso à educação pode impactar a vida de outras pessoas. Para a diretora-executiva da CPM, essa percepção fortalece o senso de compromisso com a comunidade e ajuda o jovem a reconhecer o próprio potencial de transformação.
Um dos principais desafios do voluntariado entre adolescentes é conciliar a atividade com a rotina escolar e as demais responsabilidades dessa fase. Para facilitar a continuidade, a CPM adota um modelo de voluntariado rotativo, no qual a dedicação exigida é de uma aula por mês, com compromisso mínimo de seis meses.
De acordo com Sarah Morais, o próprio processo de recrutamento e seleção apresenta ao candidato como funciona a experiência na prática, para que o jovem possa avaliar se a atividade cabe em sua rotina naquele momento.
Ainda assim, a continuidade depende da organização e da responsabilidade de cada volunteacher. É na prática que o jovem precisa aprender a se organizar e incorporar efetivamente o voluntariado à sua rotina.
A percepção dos resultados, porém, contribui para manter o engajamento. Os jovens conseguem acompanhar tanto o desenvolvimento dos alunos quanto o próprio crescimento pessoal e acadêmico, o que ajuda a transformar o compromisso voluntário em uma experiência contínua de aprendizagem.
Segundo Eduarda Azevedo, diretora voluntária da unidade da CPM no Rio de Janeiro, a colaboração também beneficia as instituições participantes.
“A parceria é um modelo que gera vantagem para as duas organizações. A escola cede o espaço físico para que a gente possa ter aulas aos sábados e a organização recruta alunos do Ensino Médio como nossos volunteachers, que são nossos professores voluntários de inglês”, explica.
Para abordar o tema, a CPM participou do International Education Summit 2026, realizado em 11 de setembro, no Centro Paula Souza, em São Paulo.
Representada por Sarah Morais, a organização participou do painel “O currículo invisível que abre portas no mundo: atividades extracurriculares, cidadania ativa e o caminho para bolsas internacionais”, ao lado de Lídia Machado, da Efígie, e Sandra Garcia, do Instituto ELA.
O debate abordou como experiências de voluntariado vêm se consolidando como parte da formação de estudantes que desejam ampliar suas oportunidades acadêmicas e profissionais em um contexto cada vez mais globalizado.
“Convidamos todos os jovens que têm interesse em fazer parte da CPM e as escolas que procuram um programa estruturado de voluntariado. As escolas podem se beneficiar por meio de parcerias e contribuir com o desenvolvimento dos estudantes. É uma parceria em que todos ganham: escolas, alunos e comunidade”, comentou Sarah durante o evento.

Há quase 30 anos, a Cidadão Pró-Mundo oferece cursos gratuitos de inglês para jovens e adultos de escolas públicas e bolsistas da rede privada. Em 2025, a organização sem fins lucrativos atendeu mais de 2.350 estudantes com o apoio de mais de 1.450 voluntários ativos e 21 empresas parceiras, com a missão de promover a inclusão social e profissional.
A organização possui oito unidades para cursos presenciais e oferece capacitação on-line para todo o Brasil. Os estudantes que concluem o curso regular alcançam o nível B1 de proficiência em inglês. Para quem deseja realizar a certificação internacional da Cambridge, a ONG também oferece o CPM Qualify, curso preparatório com duração de um ano.
(Marcelo Barbosa para ONG News)
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