Currículo invisível: voluntariado fortalece a formação de jovens

ONG News
15 de setembro de 2026
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Nem todas as habilidades desenvolvidas por um estudante aparecem no boletim ou em certificados. Cada vez mais, experiências vividas fora da sala de aula, como o voluntariado, passam a integrar o chamado “currículo invisível” — uma trajetória construída a partir de competências como liderança, comunicação, responsabilidade e empatia, que revelam o perfil do jovem e podem se tornar diferenciais em processos seletivos de universidades internacionais.

Como parte desse movimento, o voluntariado estudantil ganha espaço nas escolas como uma ferramenta de formação integral, ao proporcionar aos jovens experiências práticas de aprendizado, troca e desenvolvimento de novas competências. Entre as iniciativas que podem ser implementadas em escolas bilíngues está o ensino voluntário de inglês entre estudantes, uma prática que transforma o idioma em uma ponte entre diferentes realidades e acompanha uma tendência da educação internacional: formar jovens capazes de unir excelência acadêmica, protagonismo e responsabilidade social.

Apesar de o Brasil contar com mais de 57 milhões de pessoas que já realizaram trabalho voluntário, segundo pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), em parceria com o Datafolha, adolescentes ainda têm participação reduzida nessas iniciativas sociais.

Por esse motivo, unir o ensino de inglês ao voluntariado cria uma oportunidade para que os próprios estudantes transformem o conhecimento adquirido em sala de aula em uma experiência prática de impacto social. É o caso da Cidadão Pró-Mundo (CPM), ONG que mobiliza mais de 1.450 voluntários para ensinar inglês gratuitamente a estudantes de escolas públicas e bolsistas da rede privada.

Em 2025, a organização atendeu mais de 2.350 estudantes, distribuídos em 284 turmas. Entre os alunos atendidos, 88% possuem renda familiar entre um e quatro salários mínimos e 57% são pretos ou pardos. Além de ampliar o acesso ao ensino da língua inglesa, a iniciativa transforma o conhecimento do idioma em uma ferramenta de participação social e desenvolvimento pessoal para os próprios voluntários que, nesse caso, também são estudantes.

Imagem: Divulgação

Formação para ensinar

Alunos do Ensino Médio com 16 anos ou mais podem atuar como professores voluntários de inglês. Na CPM, esses jovens são chamados de volunteachers e passam por um processo seletivo antes de começar a atuar. Depois, recebem formação síncrona e assíncrona, material didático certificado, planos de aula e acompanhamento da equipe pedagógica ao longo do semestre.

Segundo Sarah Morais, diretora-executiva da Cidadão Pró-Mundo, os voluntários não começam a dar aulas sozinhos. A preparação inclui treinamento, materiais e acompanhamento pedagógico permanente, garantindo que tenham suporte tanto na preparação quanto durante a atuação em sala de aula.

O modelo permite que os jovens desenvolvam segurança para ensinar, ao mesmo tempo que aprimoram o próprio domínio do idioma e habilidades de comunicação, planejamento e liderança.

“Ao vivenciar o desafio prático de preparar aulas, explicar conteúdos, lidar com diferentes perfis de alunos e acompanhar sua evolução, esses estudantes desenvolvem competências como responsabilidade, comunicação, oratória, escuta ativa, flexibilidade cognitiva e empatia”, explica Sarah Morais.

Além da atuação em sala de aula, os volunteachers também trocam experiências com outros estudantes que participam do programa e se revezam nas aulas. Para Sarah, esse processo de conexão e reflexão é fundamental para que o jovem compreenda o impacto de sua atuação e desenvolva maior autoconhecimento, autorregulação, senso de propósito e autoeficácia — competências importantes para a formação de lideranças.

Ao assumir o papel de voluntário, o estudante desenvolve competências socioemocionais e acadêmicas que dificilmente seriam adquiridas apenas no ambiente escolar. A experiência fortalece a capacidade de comunicação, a oratória e a habilidade de explicar conteúdos complexos de forma acessível, além de ampliar a escuta ativa, a flexibilidade cognitiva, o senso de responsabilidade e o compromisso com a comunidade.

Parceria com escolas

Para muitos estudantes, o contato com o voluntariado representa também uma primeira experiência concreta de liderança e ensino. A parceria entre a CPM e a Escola Eleva mostra como o voluntariado pode integrar o projeto pedagógico das escolas e beneficiar a comunidade escolar.

“A parceria está no segundo ano e tem contribuído muito, não só para as pessoas que têm vindo aprender, mas também para os nossos alunos e para a nossa comunidade escolar”, comenta Isabela Pedrosa, professora da Eleva.

Para Antonia Guedes, aluna da instituição, a experiência representa uma oportunidade de assumir o papel de educadora e retribuir algo que sempre fez parte de sua trajetória.

“Para mim, educação sempre foi uma coisa muito importante. Minha família tem vários educadores e sempre me incentivou muito. Então, poder me colocar nesse papel de lecionar para as pessoas, que é uma coisa que, para mim, sempre fizeram, e poder retribuir para alguém como educadora foi muito importante. A Escola Eleva proporcionou essa oportunidade”, complementa Antonia.

Além da contribuição social, os próprios estudantes reconhecem ganhos pessoais e acadêmicos decorrentes da experiência.

“Eu acho que o meu desenvolvimento pessoal vem de conhecer várias pessoas e ver a gente ajudando elas, o impacto que o inglês tem na vida delas, porque muda muito. E essa proximidade que a gente cria com os alunos, para o meu desenvolvimento acadêmico, eu até penso mais sobre o meu inglês, por que eu estou ensinando, por que eu falo o que eu falo. Então, me ajuda em vários ângulos da minha vida a melhorar em muitos sentidos”, afirma Rafael, também aluno da Eleva.

Voluntariado e oportunidades acadêmicas

Essas vivências têm sido cada vez mais valorizadas em processos de admissão de universidades internacionais. A experiência de voluntariado permite que o estudante não apenas apresente uma atividade extracurricular, mas também demonstre competências desenvolvidas a partir de situações concretas, como liderança, protagonismo, responsabilidade social e comunicação.

Para Sarah Morais, essa dimensão prática é justamente um dos diferenciais da experiência. Segundo ela, o foco da CPM é oferecer aos estudantes uma oportunidade de desenvolvimento pessoal, acadêmico e social que possa integrar sua trajetória, e não apenas uma atividade para ser adicionada ao currículo.

“Para application, é fundamental relatar uma experiência significativa com voluntariado, contar suas próprias experiências e o que aprendeu com elas, o tipo de situação que apenas vivendo na pele você consegue desenvolver”, afirma Sarah.

Nesse sentido, o chamado “currículo invisível” não está apenas na atividade realizada, mas na capacidade do estudante de compreender e comunicar o que aprendeu com aquela experiência. O voluntariado passa, assim, a complementar a formação acadêmica ao colocar o jovem diante de situações que exigem autonomia, responsabilidade e capacidade de adaptação.

A transformação acontece dos dois lados. Para quem aprende, o inglês amplia oportunidades educacionais e profissionais. Para quem ensina, a experiência fortalece competências socioemocionais e acadêmicas.

Segundo Sarah Morais, os próprios voluntários relatam ganhos como maior confiança, aprimoramento do inglês, desenvolvimento da capacidade de explicar conteúdos com clareza e uma compreensão mais ampla sobre o impacto social da educação.

A troca entre estudantes de diferentes realidades também contribui para que os volunteachers compreendam, na prática, como o acesso à educação pode impactar a vida de outras pessoas. Para a diretora-executiva da CPM, essa percepção fortalece o senso de compromisso com a comunidade e ajuda o jovem a reconhecer o próprio potencial de transformação.

Conciliação com a rotina escolar

Um dos principais desafios do voluntariado entre adolescentes é conciliar a atividade com a rotina escolar e as demais responsabilidades dessa fase. Para facilitar a continuidade, a CPM adota um modelo de voluntariado rotativo, no qual a dedicação exigida é de uma aula por mês, com compromisso mínimo de seis meses.

De acordo com Sarah Morais, o próprio processo de recrutamento e seleção apresenta ao candidato como funciona a experiência na prática, para que o jovem possa avaliar se a atividade cabe em sua rotina naquele momento.

Ainda assim, a continuidade depende da organização e da responsabilidade de cada volunteacher. É na prática que o jovem precisa aprender a se organizar e incorporar efetivamente o voluntariado à sua rotina.

A percepção dos resultados, porém, contribui para manter o engajamento. Os jovens conseguem acompanhar tanto o desenvolvimento dos alunos quanto o próprio crescimento pessoal e acadêmico, o que ajuda a transformar o compromisso voluntário em uma experiência contínua de aprendizagem.

Segundo Eduarda Azevedo, diretora voluntária da unidade da CPM no Rio de Janeiro, a colaboração também beneficia as instituições participantes.

“A parceria é um modelo que gera vantagem para as duas organizações. A escola cede o espaço físico para que a gente possa ter aulas aos sábados e a organização recruta alunos do Ensino Médio como nossos volunteachers, que são nossos professores voluntários de inglês”, explica.

Debate sobre o currículo invisível

Para abordar o tema, a CPM participou do International Education Summit 2026, realizado em 11 de setembro, no Centro Paula Souza, em São Paulo.

Representada por Sarah Morais, a organização participou do painel “O currículo invisível que abre portas no mundo: atividades extracurriculares, cidadania ativa e o caminho para bolsas internacionais”, ao lado de Lídia Machado, da Efígie, e Sandra Garcia, do Instituto ELA.

O debate abordou como experiências de voluntariado vêm se consolidando como parte da formação de estudantes que desejam ampliar suas oportunidades acadêmicas e profissionais em um contexto cada vez mais globalizado.

“Convidamos todos os jovens que têm interesse em fazer parte da CPM e as escolas que procuram um programa estruturado de voluntariado. As escolas podem se beneficiar por meio de parcerias e contribuir com o desenvolvimento dos estudantes. É uma parceria em que todos ganham: escolas, alunos e comunidade”, comentou Sarah durante o evento.

CPM esteve presente no International Education Summit 2026 – Imagem: Divulgação

Sobre a Cidadão Pró-Mundo

Há quase 30 anos, a Cidadão Pró-Mundo oferece cursos gratuitos de inglês para jovens e adultos de escolas públicas e bolsistas da rede privada. Em 2025, a organização sem fins lucrativos atendeu mais de 2.350 estudantes com o apoio de mais de 1.450 voluntários ativos e 21 empresas parceiras, com a missão de promover a inclusão social e profissional.

A organização possui oito unidades para cursos presenciais e oferece capacitação on-line para todo o Brasil. Os estudantes que concluem o curso regular alcançam o nível B1 de proficiência em inglês. Para quem deseja realizar a certificação internacional da Cambridge, a ONG também oferece o CPM Qualify, curso preparatório com duração de um ano.

(Marcelo Barbosa para ONG News)

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