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Pessoas com fibromialgia que não têm plano de saúde podem ter acesso gratuito a acompanhamento psicológico por meio do Adote uma Fibromiálgica, iniciativa da Associação Fibromiálgicas do Brasil. O projeto conecta pacientes a psicólogos voluntários e busca oferecer suporte diante dos impactos emocionais provocados pela dor crônica, pelas limitações da rotina e pela falta de compreensão sobre a doença.
A iniciativa atende pessoas maiores de 18 anos com diagnóstico confirmado de fibromialgia, cadastro atualizado na Associação e na plataforma Fibro Social. A participação depende da disponibilidade de vagas.
A importância desse tipo de acompanhamento aparece nos relatos de mulheres atendidas pelo projeto. Luciana Silva convive com a fibromialgia há cerca de dez anos e passou por um período de dores intensas, limitações e depressão que também afetou sua vida profissional. Em uma das crises, recebeu uma videochamada da psicóloga voluntária Idalina de Senna Flôres, que também acionou pessoas próximas à paciente para ajudá-la naquele momento.
“Eu estava em uma crise depressiva muito forte. Ela fez uma videochamada comigo e entrou em contato com várias pessoas na minha cidade, pedindo socorro para que pudessem me ajudar. Esse socorro chegou até a minha casa”, conta Luciana.
Depois de deixar o emprego com carteira assinada, ela passou a trabalhar como massoterapeuta, estudar fisioterapia e atuar na mobilização de pessoas com fibromialgia na Região Carbonífera do Rio Grande do Sul. Para ela, o acompanhamento psicológico também representa um espaço de acolhimento para quem costuma assumir o papel de apoiar outras pessoas.
“Ser liderança não é fácil. Sou fibromiálgica e lido com outras fibromiálgicas. Tem momentos em que precisamos ser um pouco mais fortes e momentos em que eu também preciso ser acolhida”, afirma.
Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a fibromialgia atinge entre 2% e 3% da população brasileira e é mais frequente entre mulheres, especialmente entre 30 e 50 anos. A síndrome provoca dor generalizada, que pode persistir por mais de três meses, e pode estar associada a fadiga, alterações do sono, dificuldades de memória e atenção, ansiedade e depressão.
Na prática, os efeitos podem ultrapassar a dimensão física. Trabalho, renda, relações familiares, autonomia e atividades cotidianas também podem ser afetados.
É o caso de Débora Teixeira, professora concursada em Arroio dos Ratos (RS), diagnosticada com fibromialgia há três anos. Ela relata períodos de dor intensa, insônia e desânimo, além de dificuldades de memória e concentração.
“Tem dias em que não tenho vontade de sair, de conversar com ninguém. Quero ficar no meu canto e choro por nada”, relata.
As limitações também fizeram com que Débora precisasse adaptar sua rotina profissional. Ela pediu transferência do ensino fundamental para a educação infantil, onde encontrou uma dinâmica que considera mais compatível com suas condições.
No acompanhamento psicológico oferecido pelo projeto, encontrou um espaço para falar sobre experiências que antes preferia guardar.
“Quando fico sem conversar com ela, mando uma mensagem: ‘preciso conversar contigo’. É uma segurança que ela traz para nós. Muitas coisas eu guardava comigo porque não gostava de contar para ninguém. Só poder desabafar já dá um alívio”, afirma.
O Adote uma Fibromiálgica foi criado pela Associação durante a pandemia de Covid-19, quando a organização identificou o agravamento do sofrimento psíquico entre integrantes da comunidade.
A partir dessa percepção, a entidade passou a investir também na preparação de profissionais para o acolhimento psicológico. Os primeiros psicólogos voluntários foram mobilizados por meio do LinkedIn e de apresentações do projeto em espaços de formação profissional.
Para Daya Silva, presidente da Associação Fibromiálgicas do Brasil, o objetivo é oferecer uma rede de acolhimento especialmente para pessoas recém-diagnosticadas ou que estejam passando por momentos de crise.
“Queremos que seja uma comunidade que apoie e acolha, especialmente pessoas recém-diagnosticadas ou em crise psíquica. Elas chegam muito debilitadas e a gente sabe que essa demanda está muito gritante”, afirma.
Outro desafio enfrentado pelas pessoas com fibromialgia é a dificuldade de ter seus sintomas reconhecidos. Como a doença não apresenta alterações específicas que possam ser identificadas em exames convencionais, pacientes podem enfrentar questionamentos sobre a intensidade da dor e sobre suas limitações.
É uma situação observada pela psicóloga Idalina de Senna Flôres, voluntária da Associação há cinco anos.
“Existe a dor de não ser acreditada, de precisar justificar constantemente o próprio sofrimento, de ter a sua capacidade questionada. Muitas vezes, elas se sentem sozinhas”, explica.
Segundo ela, a convivência diária com a dor pode afetar diferentes dimensões da vida, incluindo sono, trabalho, relacionamentos e autoestima.
“Quando se convive diariamente com dor, essa condição não afeta somente o corpo. Afeta o sono, o trabalho, os relacionamentos, a autoestima e até a percepção de futuro”, afirma.
Para apoiar os próprios profissionais envolvidos no projeto, a Associação também mantém as chamadas Reuniões de Sentimento, encontros destinados aos psicólogos voluntários. O espaço permite discutir os atendimentos e compartilhar as dificuldades encontradas no acompanhamento de pacientes com dor crônica.
“A grande maioria dos psicólogos não tem fibromialgia, a gente se sente impotente diante da dor de outra mulher e precisamos falar sobre isso”, relata Idalina.
A filiação à Associação Fibromiálgicas do Brasil é gratuita. Para participar da iniciativa, é necessário realizar o cadastro na plataforma Fibro Social, que reúne conteúdos, informações e atividades da organização. O aplicativo está disponível gratuitamente para celulares Android.
O atendimento psicológico pelo Adote uma Fibromiálgica é voltado a pessoas maiores de 18 anos, com diagnóstico confirmado de fibromialgia, cadastro atualizado na Associação e na Fibro Social e sem plano de saúde privado. A entrada no programa está sujeita à disponibilidade de vagas.
Psicólogos interessados em atuar como voluntários podem entrar em contato com a Associação pelo WhatsApp (48) 9222-6572.
(Redação ONG News)
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