Equidade racial: o compromisso que as empresas precisam manter além dos ciclos políticos

ONG News
27 de outubro de 2026
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*Por Guibson Trindade

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugura um novo ciclo de expectativas para a agenda ESG no Brasil. O resultado eleitoral influencia as prioridades do governo, o ambiente regulatório e as relações entre Estado, empresas e sociedade civil. Mas há uma questão que precisa ser colocada desde o início: a continuidade da agenda de sustentabilidade e equidade racial não pode depender exclusivamente das escolhas de um governo. Ela também está condicionada à disposição das empresas de incorporar esses compromissos às suas estratégias, estruturas de governança e decisões de investimento.

Um dos aspectos relevantes desse cenário é a relação entre o governo e a sociedade civil. A existência de canais institucionais de diálogo com movimentos sociais, organizações e representações populares amplia as possibilidades de participação na formulação e no aperfeiçoamento das políticas públicas. O Conselho de Participação Social da Presidência da República, criado em 2023, exemplifica esse esforço de interlocução. Para populações historicamente sub-representadas nos espaços de poder, esses mecanismos podem ampliar as oportunidades de reivindicação, colaboração e incidência política.

A participação social, entretanto, não deve ser tratada como uma concessão do poder público, mas como parte constitutiva da democracia. O direito ao voto, embora fundamental, não esgota a participação cidadã. Uma democracia efetiva exige condições para que diferentes segmentos da sociedade influenciem as decisões que afetam suas vidas, especialmente aqueles que enfrentaram barreiras históricas de acesso aos espaços de formulação de políticas públicas. O desafio é transformar o diálogo em decisões, investimentos e resultados concretos. Essa lógica também precisa orientar a atuação das empresas, que devem reconhecer a sociedade civil como interlocutora legítima na construção de respostas aos desafios sociais e econômicos do país.

No ambiente empresarial, contudo, a evolução da agenda ESG não ocorre de maneira linear. As mudanças regulatórias podem estimular avanços, mas também evidenciam os limites de uma abordagem baseada exclusivamente em obrigações formais. A alteração das regras de divulgação de informações sobre sustentabilidade pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 2026, recolocou em debate a relação entre flexibilidade regulatória, transparência e responsabilidade corporativa. Quando a divulgação de informações deixa de ser obrigatória para determinadas organizações, a decisão de reportar seus resultados passa a ser também uma demonstração da importância que atribuem à prestação de contas.

Essa discussão vai além do cumprimento de normas. Informações consistentes sobre sustentabilidade permitem que investidores avaliem riscos, comparem organizações e compreendam melhor os efeitos de suas decisões. A redução de exigências formais pode ampliar a flexibilidade das empresas, mas também suscita preocupações sobre a comparabilidade dos dados e a transparência do mercado. Na minha avaliação, flexibilizar uma obrigação regulatória não significa reduzir a responsabilidade das organizações perante a sociedade. A maturidade da agenda ESG deve ser demonstrada pela qualidade das decisões, pela transparência e pela capacidade de identificar e enfrentar riscos e desigualdades, e não apenas pela existência de uma exigência legal.

Quando tratamos especificamente da equidade racial, essa distinção se torna ainda mais importante. Declarações públicas de compromisso são insuficientes quando não vêm acompanhadas de metas, indicadores e mecanismos de acompanhamento. É necessário conhecer a composição racial dos quadros funcionais, a presença de pessoas negras em posições de liderança, as oportunidades de desenvolvimento e promoção, os critérios de contratação e os investimentos realizados na cadeia de valor. Sem essas informações, torna-se difícil distinguir iniciativas pontuais de mudanças efetivas nas estruturas organizacionais.

É nesse contexto que destaco o Índice ESG de Equidade Racial (IEER), desenvolvido pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial, como instrumento de avaliação e monitoramento das desigualdades raciais nas organizações. Com base em dados sobre a estrutura ocupacional das empresas e parâmetros de referência relacionados à população economicamente ativa, o índice permite analisar desequilíbrios na participação de profissionais negros e na distribuição de renda, contribuindo para uma compreensão mais objetiva das desigualdades presentes no mercado de trabalho.

A relevância de instrumentos dessa natureza está na possibilidade de substituir percepções genéricas por evidências. Ao estabelecer referências para a avaliação das disparidades raciais, as organizações podem identificar onde estão os principais desequilíbrios, acompanhar sua evolução e avaliar se as medidas adotadas produzem resultados. Isso exige olhar para além do acesso ao emprego e considerar também as condições de permanência, o desenvolvimento profissional, a progressão na carreira e o acesso aos espaços de decisão.

Não se trata apenas de ampliar a presença de pessoas negras nas empresas, mas de compreender quais estruturas permitem ou dificultam sua trajetória profissional. Contratar sem criar condições para o desenvolvimento e a ascensão significa enfrentar apenas uma parte do problema. Da mesma forma, estabelecer metas sem acompanhar resultados pode transformar compromissos legítimos em declarações sem consequência prática. A equidade racial precisa integrar a estratégia corporativa, a gestão de pessoas, os mecanismos de governança e os critérios de avaliação de desempenho.

Com a reeleição de Lula, será importante acompanhar como as prioridades do governo se traduzirão em políticas públicas, articulação com o setor privado e mecanismos de participação social. Mas a responsabilidade empresarial não pode ficar subordinada a esse movimento. As empresas precisam demonstrar a consistência de seus compromissos independentemente da orientação política do governo, da pressão circunstancial da opinião pública ou da existência de uma obrigação regulatória específica.

Essa autonomia não significa desconsiderar o papel do Estado. Ao contrário, políticas públicas consistentes, regulação adequada e diálogo institucional podem criar condições favoráveis para a transformação. O ponto é reconhecer que a responsabilidade pelo enfrentamento das desigualdades não se encerra na atuação governamental. Empresas influenciam a distribuição de oportunidades, renda e poder, e suas decisões têm consequências que ultrapassam os limites de suas operações.

O que espero deste novo ciclo é que o diálogo entre governo e sociedade civil contribua para o aperfeiçoamento das políticas públicas e que o setor privado assuma seu papel na construção de um país menos desigual. Para isso, participação, escuta e colaboração precisam estar acompanhadas de compromissos verificáveis e de disposição para rever práticas que reproduzem desigualdades.

A questão central, portanto, não é apenas o que o governo fará pela agenda ESG, mas o que as empresas estarão dispostas a sustentar independentemente das mudanças políticas e regulatórias. É nesse ponto que a equidade racial se conecta à permanência. Compromissos verdadeiramente institucionais precisam resistir às mudanças de contexto, atravessar ciclos de gestão e continuar produzindo resultados mensuráveis.

A qualidade de uma política de equidade racial não se mede apenas pelo que uma organização declara, mas pelo que ela transforma e pela sua capacidade de sustentar essa transformação ao longo do tempo. Em um país marcado por desigualdades históricas, a permanência precisa deixar de ser uma expectativa e se tornar um critério concreto de responsabilidade empresarial.

Guibson Trindadeé Co fundador e Gerente Executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial.

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