Fora do Mapa da Fome, mas ainda longe da alimentação digna

ONG News
29 de agosto de 2025
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*Por Thiago Cruccit

Em 2021, o Brasil voltou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), um retrocesso que escancarou os efeitos da pandemia e da crise econômica. Quatro anos depois, a boa notícia: em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação anunciou que o país saiu novamente da lista. A exclusão se baseia na média trienal de 2022 a 2024, em que menos de 2,5% da população brasileira vivia em subnutrição, limite técnico adotado pelo órgão.

Sem dúvida, é um marco importante. Mas precisamos olhar além do indicador. A pergunta que fica é: estamos, de fato, comendo melhor?

Segundo o relatório SOFI 2025, da própria FAO em parceria com outras agências da ONU, cerca de 50 milhões de brasileiros não têm renda suficiente para manter uma dieta saudável, composta por frutas, verduras e legumes. E quase 28 milhões ainda vivem em insegurança alimentar moderada ou grave. Em outras palavras: vencemos a fome extrema, mas seguimos reféns de uma alimentação precária e pobre em nutrientes.

Os dados do Ministério da Saúde confirmam esse cenário. Hoje, mais de 20% da população adulta brasileira é obesa e quase 60% tem sobrepeso. Os números acompanham o avanço do diabetes tipo 2, da hipertensão e de outras doenças crônicas. Uma das causas está no prato. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), publicada em 2023, analisou quase 10 mil itens industrializados, 71,9% foram classificados como ultraprocessados. Desses, 97,1% apresentavam excesso de sódio, gordura ou açúcar adicionado, e 82% continham aditivos cosméticos, como corantes, aromatizantes e intensificadores de sabor.

Apesar do panorama preocupante, a trajetória de saída do Mapa da Fome mostra que o país tem capacidade de enfrentar crises agudas de segurança alimentar. Mas também deixa evidente uma lacuna: não conseguimos resgatar as pessoas da fome promovendo, ao mesmo tempo, uma alimentação de qualidade, sustentável e nutritiva.

É hora de assumir novos compromissos. Precisamos de políticas fiscais e tributárias que incentivem a produção e o consumo de alimentos saudáveis, e de uma educação nutricional que ensine a população a interpretar rótulos, planejar refeições e fazer boas escolhas alimentares.

Nesse sentido, a reforma tributária em curso é uma oportunidade histórica. A proposta de criação de um Imposto Seletivo sobre produtos prejudiciais à saúde, como os ultraprocessados, pode gerar um impacto duplo positivo: reduzir o consumo desses alimentos e tornar frutas, verduras e legumes mais acessíveis, especialmente para famílias de baixa renda. Se bem implementada, a medida pode corrigir distorções históricas da nossa cesta básica.

Além disso, é essencial investir em uma regulação mais eficaz do ambiente alimentar: rotulagem clara e frontal, restrições à publicidade infantil de alimentos ultraprocessados, e limites à oferta desses produtos em escolas e outros espaços frequentados por crianças e adolescentes. Tudo isso deve ser acompanhado de monitoramento contínuo, com foco nas populações mais vulneráveis.

Sair do Mapa da Fome é uma conquista coletiva. Mas a ausência de fome não é sinônimo de alimentação digna. Não basta que as pessoas comam. É preciso garantir que o que comem nutra seus corpos, desenvolva suas mentes e amplie suas possibilidades. Especialmente na infância e na adolescência, alimentação saudável é investimento em futuro.

*Thiago Crucciti, diretor nacional da ONG Visão Mundial Brasil

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