ONG Mobilize expõe desafio de manter visibilidade às causas

ONG News
8 de abril de 2026
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Após um período inicial de visibilidade, o ativista Ricky Ribeiro (conheça-o aqui), fundador do Mobilize Brasil, enfrenta a redução dos convites para eventos e busca apoio para manter a atuação da organização.

Diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), doença que provoca a perda progressiva dos movimentos, Ribeiro transformou a própria trajetória em uma pauta pública sobre mobilidade urbana e direito à cidade. Os primeiros sintomas surgiram ainda jovem, com dores no corpo e dificuldades de movimento, até o diagnóstico da mesma condição que afetou o físico Stephen Hawking (1942–2018). Assim como ele, Ribeiro superou a expectativa inicial de vida e construiu um legado social por meio do Mobilize, criado em 2011.

Na década passada, o site ganhou espaço em jornais, teve estudos repercutidos na televisão e se consolidou como referência ao sistematizar dados inéditos sobre infraestrutura urbana, especialmente calçadas, tema historicamente negligenciado no planejamento das cidades brasileiras.

Eram frequentes os pedidos de entrevistas e convites para palestras sobre qualidade do caminhar, rankings de cidades e indicadores que influenciavam gestores públicos.

A visibilidade também foi impulsionada pelo livro Movido pela Mente, escrito com Gisele Mirabai. Produzido com tecnologia de rastreamento ocular, o livro ampliou o alcance da sua história e incorporou temas como autonomia, tecnologia assistiva e limites do corpo.

Nos últimos anos, porém, esse ciclo perdeu força. A cobertura sobre mobilidade urbana se tornou mais episódica, concentrada em crises e decisões pontuais. Sem novos estudos de grande escala – que dependem de financiamento -, o Mobilize reduziu a geração de pautas próprias. A agenda de palestras também encolheu, impactando visibilidade e receita. Projetos recentes, como um livro infantil sobre mobilidade, tiveram pouca repercussão.

A mudança não é isolada. Organizações da sociedade civil frequentemente dependem de dados inéditos ou marcos específicos para manter presença na mídia. Sem esses gatilhos, pautas estruturais tendem a perder espaço para temas mais imediatos. No caso do Mobilize, a falta de recursos impacta diretamente a produção de conteúdo e, consequentemente, sua capacidade de incidir no debate público.

A trajetória de Ribeiro evidencia essa dinâmica. Se, em um momento, a combinação entre história pessoal e produção técnica garantiu espaço na imprensa e uma agenda intensa de convites, hoje o desafio é retomar esse ciclo em um ambiente mais competitivo e com menor atenção a temas estruturais. O Mobilize busca novos parceiros e investidores para voltar a produzir estudos e ampliar sua atuação.

Para entender as reais necessidades da organização e inspirar movimentos sociais que também passam por um momento de ostracismo da mídia, o portal ONG News conversou com Rick Ribeiro no início de abril. 

ONG News: Como é perceber que uma pauta que já teve grande visibilidade perde espaço na grande mídia, mesmo que sua importância continue gritante nesse tempo todo?

Ricky Ribeiro: Perceber essa perda de espaço é, ao mesmo tempo, frustrante e revelador. Frustrante porque a mobilidade urbana continua sendo um tema urgente, com impacto direto na qualidade de vida, no meio ambiente e na equidade nas cidades. Mas também revela uma lógica antiga: o tema nunca teve o espaço que deveria, em grande parte por estar ligado a quem depende de transporte público, caminha ou pedala.

Houve um período fora da curva, na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016, quando a mobilidade ganhou visibilidade ao entrar no debate sobre legado. Depois disso, o tema voltou a perder espaço, o que mostra como a atenção da mídia costuma seguir eventos e ciclos, e não a relevância contínua dos problemas. Ainda assim, isso reforça a importância de manter o tema ativo fora da mídia tradicional.

ONG News: Em que medida houve redução no número de palestras: como era há dez anos após lançar o livro e a plataforma se comparado com sua agenda atual?

Ricky Ribeiro: Os convites começaram a crescer após o lançamento do livro, em 2017, e ganharam força nos anos seguintes. Em 2019 já havia uma agenda relevante, principalmente em universidades e eventos, mas 2024 foi o melhor momento, com a segunda edição do livro e maior demanda por palestras em empresas.

Mais recentemente, sobretudo na segunda metade do último ano, houve uma desaceleração nos convites, especialmente do setor corporativo. Isso pode refletir mudanças de prioridade ou a ausência de um fato novo que gere demanda. Ainda assim, o foco continua sendo a qualidade das apresentações e o impacto gerado. No total, já foram realizadas mais de 80 palestras.

ONG News: A mobilidade urbana melhorou nesses últimos 15 anos? O que mudou da fundação do Mobilize até hoje?

Ricky Ribeiro: Houve avanços importantes do ponto de vista legal, com políticas que reconhecem a mobilidade como um direito. No entanto, na prática, pouco mudou para pedestres e usuários do transporte público.

As calçadas continuam, em geral, em más condições, o transporte por trilhos avançou lentamente e muitas promessas não se concretizaram. Após a pandemia, inclusive, houve aumento no número de veículos nas ruas. Por outro lado, cresceu a conscientização da população e o número de organizações atuando no tema. O avanço existe, mas ainda é abaixo do necessário.

ONG News: Como manter uma organização ativa quando a visibilidade diminui e os recursos escasseiam?

Ricky Ribeiro: Manter uma organização ativa nesse cenário exige clareza de propósito e capacidade de adaptação. É preciso diversificar fontes de receita, fortalecer o relacionamento com apoiadores e buscar novas formas de engajamento, inclusive no ambiente digital.

No caso do Mobilize, seguimos produzindo conteúdo mesmo com menor repercussão, além de investir em campanhas de doação e na busca por novos parceiros. Também é um momento de priorizar ações de maior impacto e otimizar recursos, o que exige escolhas estratégicas constantes.

ONG News: Sua trajetória sempre foi marcada por resiliência. O que ela ensina sobre esses momentos de retração?

Ricky Ribeiro: A resiliência mostra que momentos de retração fazem parte da trajetória e não devem ser vistos como fracasso, mas como fases de adaptação.

Nem sempre é possível controlar o cenário, mas é possível ajustar caminhos, manter consistência e seguir atuando, mesmo em outro ritmo. Muitas vezes, esses períodos fortalecem a base, trazem aprendizados e preparam para novos ciclos.

Para conhecer mais sobre a organização, doar ou se voluntariar, acesse Mobilize Brasil.

(Redação ONG News)

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