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A cultura de doação no Brasil movimentou R$ 24,3 bilhões em 2024, com a participação de cerca de 50 milhões de pessoas, segundo dados apresentados pelo IDIS — Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social — durante painel do Fórum Interamericano de Filantropia Estratégica (FIFE), nesta quinta-feira, no Recife. O volume é o maior da série histórica e supera o total de doações corporativas no mesmo período.
O dado foi o ponto de partida da discussão sobre cultura de inovação no terceiro setor, que reuniu Daniela Saraiva, Douglas Gonzalez e Luisa Lima. A leitura apresentada no painel indica um cenário ambíguo: embora o volume financeiro tenha crescido, o comportamento do doador mudou — e impõe novos desafios às organizações.
“Os doadores estão mais racionais. Eles buscam mais informação antes de decidir para quem doar e não necessariamente mantêm fidelidade às mesmas organizações”, afirmou Luisa Lima, ao apresentar a pesquisa Brasil Giving .
Segundo a Pesquisa Doação Brasil 2024, coordenada pelo IDIS e realizada pela Ipsos, 78% dos brasileiros com mais de 18 anos e renda familiar acima de um salário mínimo fizeram algum tipo de doação em 2024, seja em dinheiro, bens ou tempo. A mediana das doações em dinheiro também cresceu, passando de R$ 300 em 2022 para R$ 480 em 2024, o que indica uma maior disposição em apoiar causas com valores mais consistentes.
“O que chama a atenção é o perfil mais criterioso desse doador, pois 86% dos entrevistados afirmam escolher as causas com cuidado e 83% buscam informações antes de doar”, explica Luisa. Segundo o estudo, quase metade dos entrevistados revelou já ter deixado de doar depois de ouvir notícias negativas sobre organizações, e apenas 49% mantêm fidelidade a uma mesma instituição ano após ano, contra 69% em 2015. Entre os que não doam, a principal justificativa é a falta de confiança ou transparência, mencionada por 38% – um salto em relação a 24% em 2022.
Mesmo em situações de emergência, a falta de confiança dos doadores brasileiros ainda está presente. Em 2024, metade da população realizou doações em resposta a emergências, sendo que 41% contribuíram com bens, 24% com dinheiro e 14% com tempo voluntário. Dos entrevistados, 59% afirmaram acompanhar o trabalho realizado pelas ONGs para as quais doaram.
Na segunda parte do painel, mediada por Douglas Gonzalez, do Dia de Doar, a discussão avançou para o papel das organizações nesse cenário. A avaliação apresentada é de que o fortalecimento da cultura de doação depende de uma atuação coletiva, que vá além das estratégias individuais de captação.
O Dia de Doar — versão brasileira do movimento global Giving Tuesday — foi apresentado como um exemplo de mobilização descentralizada, que permite a participação de organizações em diferentes territórios e realidades.
Ao tratar das chamadas “narrativas engajadoras”, Douglas defendeu que a comunicação sobre doação precisa ganhar espaço no cotidiano. “A gente não quer organizações pedindo o tempo todo. A gente quer doadores procurando as organizações. E isso só acontece quando doar vira assunto do dia a dia.”
Segundo ele, é preciso que a inovação seja uma busca contínua do terceiro setor diante de um doador mais exigente. As organizações precisam investir em transparência e fortalecer a confiança pública, por meio de ações que despertem o potencial da filantropia brasileira.
Apesar dos desafios, a pesquisa aponta um dado considerado positivo: há um contingente significativo de não doadores disposto a contribuir, o que sugere espaço para expansão da cultura de doação no país.
(Redação ONG News)
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