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*Por Sonia de Almeida
O terceiro setor brasileiro já não pode ser deixado à margem dos grandes debates nacionais. Hoje, ele constitui uma estrutura essencial da resposta do país aos desafios sociais históricos, seja na educação, na redução das desigualdades ou no combate à pobreza. Ainda que sua atuação seja cada vez mais reconhecida, sua presença nos espaços estratégicos de decisão permanece limitada, criando um descompasso entre sua relevância prática e seu peso político.
Segundo o relatório Panorama das ONGs: capítulo Brasil, elaborado pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), o setor desempenha um papel incontornável. 91% dos líderes de ONGs afirmam que o poder público depende dessas organizações para prestar serviços que não consegue ou não prioriza financiar. O dado revela uma verdade incontestável: o terceiro setor deixou de ser complementar e se tornou indispensável.
Essa centralidade é visível no cotidiano. A pesquisa também mostra que 65% das organizações desenvolvem projetos comunitários e 58% atuam diretamente na prestação de serviços, com foco em crianças e jovens (28%), educação (14%) e direitos humanos (11%). São números que refletem o papel direto das ONGs na garantia de direitos básicos, especialmente nos territórios mais vulneráveis.
Além disso, o terceiro setor tem se consolidado como um ambiente fértil de inovação social. Com forte presença territorial e flexibilidade operacional, as organizações conseguem testar soluções, desenvolver metodologias e experimentar modelos que frequentemente inspiram políticas públicas em maior escala. Não à toa, o relatório aponta o fortalecimento das redes de parceria com os setores público e privado como um dos principais sinais de maturidade do campo.
Apesar desse protagonismo prático, as ONGs seguem pouco ouvidas em debates estruturantes, como reformas econômicas e decisões legislativas. Há, portanto, uma contradição evidente: quem executa, conhece a realidade e gera impacto não participa proporcionalmente da formulação das políticas que implementa.
Somam-se a isso desafios persistentes em que a sustentabilidade financeira segue como o maior obstáculo citada por 66% das organizações. Ainda que haja uma busca ativa por diversificação, com média de 3,9 fontes de financiamento por ONG, a dependência de recursos restritos (68%) limita planejamento e autonomia. Paralelamente, a demanda cresce: a maioria relata aumento na procura, e 44% estão muito confiantes em responder a essa pressão, evidenciando resiliência e capacidade de adaptação.
Outro ponto crítico é a percepção pública. Embora reconheçam seu impacto, muitas organizações sentem que o setor ainda é pouco compreendido e, em alguns casos, alvo de estigmas, um fator que prejudica captação de recursos e legitimidade política.
Diante desse cenário, é incoerente que, executando políticas públicas, inovando em soluções sociais e representando demandas reais da população, o terceiro setor ainda não tenha participação proporcional na formulação das decisões que moldam o futuro do país. O desafio agora é ir além do reconhecimento: é hora de avançar para a inclusão efetiva e estrutural.
*Sonia de Almeida, Diretora Executiva da Afesu.
Sobre a Afesu
Fundada em 1963, a Afesu (Associação Feminina de Estudos Sociais e Universitários) é uma organização sem fins lucrativos que promove a inclusão social de meninas e mulheres por meio da educação.
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