Projeto transforma vida de crianças pela visão

ONG News
8 de janeiro de 2026
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Bernardo Rodrigues Sampaio Éverton, de 9 anos, aluno da Escola Classe 43 de Ceilândia (DF), nunca havia passado por um exame oftalmológico. Sendo uma criança que está no espectro autista, ele enfrentava dificuldades muito além de seus outros coleguinhas da 4º série do ensino fundamental.

A ausência de suporte clínico especializado, somada à escassez de recursos da família, impedia os pais do garoto a auxiliá-lo nesta importante etapa do seu desempenho escolar.

A situação mudou quando a escola de Bernardo recebeu a visita do projeto Em Um Piscar de Olhos. Com o apoio de especialistas capacitados para o atendimento a crianças (incluindo pessoas atípicas e com deficiência), o menino conseguiu realizar, pela primeira vez, a triagem visual — um passo decisivo para melhorar as alterações visuais identificadas, bem como o aprendizado, o bem-estar e a autonomia no dia a dia. “Agora, conseguimos que ele tivesse esse acompanhamento, e o nível de aprendizagem dele pode ser outro”, comemora a mãe, Rafaela Éverton.

A dificuldade para encontrar um diagnóstico preciso, capaz de melhorar o ensino de alunos como Bernardo, é algo comum em escolas de todo o país, sobretudo no ensino público, onde se concentram meninos e meninas de famílias em vulnerabilidade econômica. Este relato também ajuda a explicar a importância do enfrentamento de um problema silencioso, mas estrutural: a relação direta entre saúde ocular, aprendizagem e evasão escolar.

Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), cerca de 20% das crianças em idade escolar apresentam algum tipo de problema visual — e aproximadamente 80% do aprendizado acontece de forma visual. Quando o diagnóstico não chega, o impacto vai muito além da visão: afeta o desempenho da criança, sua autoestima e, em muitos casos, sua permanência na escola.

Quando enxergar é condição para aprender

Mayo Tavares, oftalmologista infantil do projeto Em Um Piscar de Olhos, explica que a criança, muitas vezes, desconhece a sua própria dificuldade de enxergar. “Como especialista, a gente consegue compreender suas dificuldades, mesmo sem ela explicar exatamente onde está o problema na aprendizagem. Vamos conversando aos poucos, até ganhar a confiança do aluno e, assim, facilitar o momento de fazer os exames e diagnosticar a deficiência”, diz. 

O projeto Em Um Piscar de Olhos atua, inicialmente, com uma triagem oftalmológica realizada dentro das próprias escolas públicas. Em poucos segundos, um auto refrator portátil, capaz de realizar a medição sem dilatação da pupila, identifica possíveis erros de refração como miopia, hipermetropia e astigmatismo.

Os dados coletados são inseridos no Sistema Integrado da Saúde Oftalmológica (SISO). A partir daí, estudantes que necessitam de acompanhamento são encaminhados para consultas especializadas e, quando indicado, para a escolha dos óculos.

A metodologia utilizada é capaz de diagnosticar precocemente seis fatores de refração que podem levar a problemas oftalmológicos e até à cegueira, em pacientes a partir dos 6 meses de idade, gerando dados que auxiliam nas etapas seguintes de consulta e de escolha dos óculos.

Claudia de Vieira dos Santos, 23 anos, mãe de Enzo Vieira Leite, de 8 anos, estudante da Escola Classe 22, conhece bem as dificuldades de conciliar trabalho, cuidados com a família e acompanhamento escolar. “Esse projeto ajuda muito a gente que não tem condições de acompanhar de perto o que está acontecendo com nossos filhos em sala de aula”, diz. Sem a certeza de que possa existir um problema oftamológico, mães como a de Enzo não encontram tempo para levar os filhos a uma consulta dessa especializadade. 

“Faço de tudo para ele não faltar na escola. É bom saber que meu filho vai ter acesso aos exames lámesmo na escola porque sei que isso facilita muito o aprendizado dele”, conta. Para Claudia, essa oportunidade representa mais do que cuidado com a saúde: é também garantia de que Enzo, diagnosticado com a visão embaçada, irá acompanhar melhor as aulas e aprender com mais facilidade.

Uma ideia que nasceu antes da pandemia — e cresceu apesar dela
Leonardo Figueiredo, fundador do Em Um Piscar de Olhos. Foto: Divulgação- Acervo Em um Piscar de Olhos

A história do projeto começou a ser desenhada em 2019, quando o administrador Leonardo Figueiredo, fundador da iniciativa, teve contato com a tecnologia durante uma viagem aos Estados Unidos. A percepção era clara: se o diagnóstico fosse mais rápido, acessível e levado a ambientes onde as crianças normalmente frequentam, seria possível evitar impactos graves na educação, incluindo casos de cegueira evitável.

Nos últimos cinco anos, o Em Um Piscar de Olhos já percorreu 10 estados brasileiros (entre eles São Paulo, Minas Gerais, Roraima, Amapá, Rio Grande do Sul e o Distrito Federal) e ultrapassou a marca de 150 mil crianças e adolescentes atendidos.

Esses resultados reforçam um fato: cuidar da visão é uma estratégia concreta de combate à evasão escolar. Segundo Leila Rodrigues, diretora de uma das escolas atendidas pelo projeto – a Centro de Ensino Fundamental 11 (DF) –, “se um aluno não tiver a saúde garantida, ele não vai ter um processo de aprendizagem garantido”. E completa: “A evasão escolar acontece quando a gente não tem o cuidado de prestar atenção no aluno”.

Um olhar para o futuro

Alunos beneficiados pelo projeto. Foto: Divulgação – Acervo Um Piscar de Olhos

A atuação do Em Um Piscar de Olhos acontece por meio de parcerias com secretarias municipais e estaduais de Educação e Saúde, além do apoio da iniciativa privada e de institutos locais. 

Para Leonardo Figueiredo, o objetivo vai além do diagnóstico. “Temos como propósito potencializar a redução entre 60% e 80% dos casos de cegueira evitável em crianças e jovens”, afirma o fundador, reforçando que o projeto quer contribuir para melhorar o desempenho escolar e a qualidade de vida dos estudantes.

“Em cada escola atendida, a história se repete com pequenas variações: crianças que passam a enxergar melhor, professores que conseguem ensinar com mais efetividade, famílias sem condições ou acessos que finalmente entendem por que aprender estava tão difícil”, diz. Às vezes, mudar o futuro de uma criança começa em um simples piscar de olhos.

(Por Fernanda Lagoeiro)

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