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*Por Karla Marques, Bianca Martins e Suellen Soares
Quando um projeto social termina, a pergunta mais importante não deveria ser quantas pessoas participaram, quantas oficinas foram realizadas ou quantos recursos foram executados. A pergunta deveria ser outra: o que permaneceu depois que o projeto acabou?
Durante muito tempo, a inovação social foi associada à criação de novas metodologias, tecnologias ou iniciativas capazes de responder a problemas complexos. Tudo isso continua sendo importante. Mas talvez o verdadeiro indicador de inovação esteja menos na novidade de uma solução e mais na capacidade que ela deixa instalada nos territórios. Projetos começam e terminam. Comunidades permanecem.
É por isso que a inovação social precisa ser medida também pela autonomia que consegue produzir. Uma liderança que passa a mobilizar sua comunidade sem depender da organização que a formou. Um coletivo que continua articulado depois do encerramento do financiamento. Um território que aprende a ocupar espaços de decisão e a defender seus interesses de forma organizada.
Experiências desenvolvidas pela Casa Hacker ajudam a ilustrar esse processo. Embora atuem em frentes distintas, elas revelam um padrão comum: projetos são instrumentos; capacidade coletiva é o verdadeiro legado.
No PerifaImpacto, por exemplo, essa construção começa em um lugar pouco valorizado: a logística. Organizar um encontro presencial em Parelheiros, definir coletivamente o local, enfrentar os desafios de mobilidade e vivenciar o cotidiano de uma ocupação popular não são apenas tarefas operacionais. São parte da própria formação.
Quando uma liderança afirma que prefere trabalhar sozinha porque o coletivo cansa ou gera conflitos, dificilmente essa percepção será transformada por uma apresentação de slides. Ela muda quando a experiência concreta mostra que, em muitos territórios, a cooperação não é apenas um valor. É uma condição para que a vida cotidiana aconteça. Nesse contexto, a logística deixa de ser bastidor e passa a fazer parte da metodologia.
No Inova Quebrada, a mesma lógica aparece por outro caminho. O Plano de Desenvolvimento Individual (PDI) nasceu como uma ferramenta de gestão, baseada em metas, indicadores e acompanhamento periódico. Com o tempo, tornou-se um instrumento para que as próprias lideranças assumissem o protagonismo sobre seu desenvolvimento.
Entre outubro de 2025 e maio de 2026, o número de ações concluídas pelas lideranças acompanhadas passou de 56 para 69, enquanto a execução das metas evoluiu de 72,3% para 81,9%. Mais do que indicadores de desempenho, esses números sugerem algo maior: quando planejamento, acompanhamento e acesso a recursos caminham juntos, cresce também a capacidade das lideranças de construir suas próprias respostas.
Essa perspectiva dialoga com o pensamento de Lélia Gonzalez, que defendia o reconhecimento dos saberes produzidos nos territórios populares. O papel de quem apoia processos de desenvolvimento não é substituir esse conhecimento, mas criar condições para que ele se fortaleça e produza transformação coletiva. Mas a autonomia individual, por si só, não basta.
Pouco adianta formar lideranças preparadas se elas continuam ausentes dos espaços onde as políticas públicas são debatidas e decididas. É justamente essa reflexão que orienta o Hub Quebrada em Movimento. Incentivar a participação em conselhos municipais e outros espaços de controle social não significa estimular carreiras políticas. Significa ampliar a presença de quem conhece os problemas do território nos ambientes onde as soluções são construídas.
Também aqui o método importa. Não basta apresentar reivindicações. É preciso reunir evidências, produzir diagnósticos, compartilhar experiências e fortalecer redes capazes de sustentar essa participação ao longo do tempo. Uma liderança isolada dificilmente transforma uma política pública. Redes organizadas ampliam a capacidade de incidência e tornam essa participação mais permanente.
À primeira vista, essas três experiências tratam de temas distintos: formação de lideranças, planejamento e participação cidadã. Observadas em conjunto, revelam uma mesma lógica.
A inovação social talvez não esteja, prioritariamente, na criação de projetos inéditos. Ela está na capacidade de transformar projetos em instrumentos para que pessoas e comunidades desenvolvam autonomia, fortaleçam vínculos e ampliem sua capacidade de agir coletivamente.
Essa talvez seja uma mudança importante para quem financia, executa ou avalia iniciativas sociais. Em vez de perguntar apenas quantas atividades foram realizadas ou quantas pessoas foram atendidas, vale perguntar quais capacidades permaneceram depois que o projeto terminou.
Projetos têm prazo. Editais acabam. Recursos se encerram. Já a capacidade de uma comunidade continuar aprendendo, cooperando, ocupando espaços de decisão e enfrentando seus próprios desafios pode atravessar gerações.
Talvez seja justamente essa a medida mais consistente da inovação social: não aquilo que uma organização realiza durante um projeto, mas aquilo que continua acontecendo quando ela já não precisa mais estar presente.
*Karla Marques é gerente de Projetos do Hub Quebrada em Movimento na Casa Hacker e terapeuta cognitivo-comportamental. Pós-graduada em Gestão de Pessoas pela USP/Esalq e formada em Gestão Financeira, atua no desenvolvimento e fortalecimento de mulheres negras de territórios periféricos.
Bianca Martins é geógrafa formada pela UNICAMP, escritora, pesquisadora e educadora social. Na Casa Hacker, atua como formadora, facilitadora, consultora e assistente de
projetos, com foco no desenvolvimento de lideranças periféricas e nas interseccionalidades entre raça, gênero, sexualidade, território e classe social.
Suellen Soares é administradora e pós-graduanda em História da Cultura Afro-Brasileira. Mulher negra, mãe e moradora de Hortolândia (SP), atua como Assessora de Impacto na Casa Hacker, acompanhando lideranças periféricas e o desenvolvimento de iniciativas nos projetos PerifaImpacto e Inova Quebrada. Sua atuação é voltada ao fortalecimento de mulheres e de pessoas de territórios periféricos.
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