As raízes invisíveis da confiança


O Brasil possui mais de 897 mil Organizações da Sociedade Civil (OSCs) ativas, segundo o Mapa das Organizações da Sociedade Civil. A distribuição dessas entidades pelo país, no entanto, é desigual: 41,5% estão no Sudeste, 24,7% no Nordeste, 18,4% no Sul, 8,2% no Centro-Oeste e 7,2% no Norte.
Os números ajudam a dimensionar a presença do Terceiro Setor no território nacional, mas não revelam quais organizações conseguem espaço no noticiário. Distantes das capitais e dos grandes centros econômicos, muitas iniciativas locais desenvolvem trabalhos relevantes sem alcançar a mesma visibilidade de entidades maiores ou mais próximas das redações.
Para apresentar essas organizações, o ONG News inicia a série especial “Fora do radar”. A proposta é contar histórias de OSCs que atuam em diferentes regiões do Brasil e contribuem para o desenvolvimento dos próprios territórios, embora raramente apareçam na cobertura nacional.
A primeira organização da série é a Associação Cultural Pisada do Sertão, fundada em 2004 no município de Poço de José de Moura, no Alto Sertão da Paraíba. O trabalho começou com um grupo de dança e transformou-se em uma rede de iniciativas voltadas à cultura, educação, esporte, tecnologia, proteção social e geração de renda.
A Pisada do Sertão nasceu da mobilização de jovens liderados por uma professora que enxergava na cultura uma possibilidade de enfrentar a falta de oportunidades na região.
A primeira iniciativa foi um grupo de dança incentivado pela Igreja Católica do município. O objetivo inicial era preparar uma apresentação cultural e oferecer uma atividade de entretenimento à juventude. Com o tempo, o projeto passou a mobilizar mais pessoas e a estimular jovens a construir novas perspectivas dentro do próprio território.
“Era para ser uma apresentação cultural. Na época, a Meira, que começou tudo, viu uma oportunidade de realizar sonhos”, conta Tamara, gestora de comunicação da organização.
Em 2006, a Pisada do Sertão começou a oferecer oficinas de dança em escolas. A mudança ampliou seu alcance e marcou a passagem de um grupo artístico para um coletivo cultural com atuação social permanente.
A organização surgiu em Poço de José de Moura e abriu polos em Poço Dantas, Pocinhos e Triunfo. Seus projetos, no entanto, já alcançam 12 municípios paraibanos.
A cultura regional continua no centro do trabalho, mas passou a dialogar com outras áreas. Dança, música e teatro são desenvolvidos ao lado de atividades esportivas, inclusão digital, educação socioemocional, atendimento psicossocial, empreendedorismo e qualificação profissional.
A trajetória de Tamara acompanha parte da história da própria organização. Ela chegou à Pisada do Sertão como participante depois que o irmão ingressou no grupo de dança. Ao se aproximar das atividades, passou a colaborar com a instituição e assumiu novas responsabilidades ao longo dos anos.
Duas décadas depois, Tamara atua como gestora de comunicação da OSC. Sua filha também participa das atividades oferecidas pela organização.
“Eu acredito que a gente tem um propósito na vida. Vi que o meu propósito estava alinhado ao da organização: reconhecer as fragilidades do território e tornar visível o que há de bom no local”, afirma.
Depois da perda dos pais, Tamara e o irmão também encontraram na Pisada do Sertão uma rede de pertencimento e apoio. Para ela, a organização passou a representar a possibilidade de construir perspectivas de futuro sem precisar abandonar a região.
“Sonhar na Pisada do Sertão se tornou fácil novamente”, resume.

Entre as iniciativas desenvolvidas pela organização está o Cultura Digital, que atende 200 crianças e adolescentes de Poço de José de Moura e Poço Dantas. O projeto integra tecnologia, dança, música e teatro por meio de oficinas práticas, laboratórios de inovação e hackathons.
Além de promover inclusão digital e cultural, a iniciativa capacita educadores e agentes culturais e incentiva a criação de soluções para desafios locais.
Outro projeto é a Escolinha do Futuro, que oferece aulas de futebol e voleibol a 700 crianças e adolescentes de Poço de José de Moura e Poço Dantas. A formação esportiva é complementada por oficinas de educação socioemocional sobre cidadania, cultura de paz, resolução de conflitos e trabalho em equipe.
O projeto também acompanha a frequência e o desempenho escolar dos participantes e realiza encontros com as famílias para fortalecer os vínculos entre estudantes, responsáveis e escolas.
Na área cultural, o Sertão Cultural oferece cursos e oficinas de dança e música regional. O projeto recebeu R$ 150 mil por meio de emendas parlamentares e do Termo de Fomento nº 16/2022.
A Pisada do Sertão também mantém ações de proteção social, com atendimento psicossocial, encontros coletivos com famílias, acesso a benefícios eventuais e articulação com o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos.
A atuação da organização alcança diferentes gerações, de crianças a pessoas idosas. Além das atividades socioeducativas, a Pisada do Sertão oferece cursos ligados à economia criativa, ao empreendedorismo e à inclusão produtiva.
Uma das frentes em expansão é o turismo sustentável. Até 2024, a organização concentrava suas atividades na formação de pessoas interessadas em empreender no setor. Em 2026, passou a trabalhar também com a criação de roteiros turísticos, valorizando a cultura, a memória e as possibilidades econômicas do Alto Sertão.
Outros projetos promovem capacitações em áreas como culinária, artesanato, moda, audiovisual, agroecologia, energias renováveis e tecnologia.
A proposta é criar condições para que os moradores possam estudar, trabalhar, empreender e construir projetos de vida sem que a saída do território seja a única alternativa.
“Nós não queremos que as pessoas saiam da região. Damos oportunidades para que elas possam crescer no Sertão”, afirma Tamara.
Segundo o balanço apresentado pela organização, a Pisada do Sertão já realizou 88 cursos, qualificou 3.891 jovens e mulheres e contribuiu para a inserção de 669 pessoas no mercado de trabalho. Ao todo, 1.456 crianças e adolescentes já foram atendidos por suas iniciativas.
A organização também promove eventos culturais capazes de mobilizar moradores de diferentes municípios. Uma dessas atividades reuniu 26 mil pessoas em uma cidade com aproximadamente 6 mil habitantes, demonstrando como uma iniciativa criada por jovens em um pequeno município pode ultrapassar fronteiras sem perder a ligação com o lugar onde nasceu.
Ao longo de mais de duas décadas, a Pisada do Sertão transformou a cultura em um ponto de partida para ampliar direitos, fortalecer vínculos e gerar oportunidades. Sua trajetória abre a série “Fora do radar” mostrando que parte das respostas aos desafios do país está sendo construída longe dos grandes centros — por organizações profundamente conectadas às comunidades em que atuam.
(Marcelo Barbosa para ONG News)
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