Pesquisa revela rejeição à escala 6×1 entre trabalhadores


Uma voz pode reproduzir palavras que nunca foram ditas. Um candidato pode aparecer em lugares onde jamais esteve. Um eleitor pode ser criado artificialmente, com rosto, opiniões e comportamento político. Uma eleição, mesmo depois de encerrada nas urnas, pode continuar sendo disputada por meio de imagens e narrativas produzidas por inteligência artificial. Mas o que acontece com a democracia quando a tecnologia deixa de apenas influenciar a política e passa a participar da própria construção da realidade política?
É essa a questão central de Política Sintética — Como a inteligência artificial transforma os políticos, as eleições e a democracia?, novo livro da antropóloga Isabela Kalil, publicado pela Diálogos Editora. A obra será lançada na próxima terça-feira, 13 de outubro, às 18h30, na Livraria Martins Fontes Consolação, em São Paulo, com um bate-papo entre a autora e o também antropólogo e escritor Michel Alcoforado, conhecido por suas análises sobre comportamento, consumo e transformações culturais.
Com 232 páginas, o livro investiga como a inteligência artificial vem alterando as campanhas eleitorais, a formação da opinião pública e as relações entre candidatos, eleitores e instituições democráticas. A partir de pesquisas sobre o bolsonarismo, a extrema direita e as plataformas digitais, Isabela propõe olhar para além dos deepfakes, das notícias falsas e da propaganda personalizada, mostrando como sistemas de inteligência artificial já participam da produção de imagens, vozes, personagens, discursos e acontecimentos políticos.
A discussão ganha relevância diante de um cenário em que ferramentas de inteligência artificial generativa se tornam cada vez mais acessíveis e passam a integrar estratégias de comunicação política. Para Isabela, entretanto, o problema não está apenas na possibilidade de fabricar conteúdos falsos, mas nas transformações que essas tecnologias provocam na maneira como a sociedade reconhece seus representantes, interpreta acontecimentos e imagina o futuro.
No livro, Isabela Kalil apresenta o conceito de política sintética, definido a partir das relações entre pessoas, plataformas, dados, infraestruturas e sistemas de inteligência artificial que passam a atuar conjuntamente na vida política.
Isso significa que a tecnologia não funciona apenas como uma ferramenta utilizada por campanhas já organizadas. Ela também pode modificar as condições em que um candidato se faz presente, um eleitor é representado e uma campanha constrói sua capacidade de mobilização.
Um dos exemplos investigados pela autora envolve a circulação de teorias conspiratórias sobre a identidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Durante uma manifestação bolsonarista na Avenida Paulista, em junho de 2025, Isabela encontrou uma mulher convencida de que o presidente havia sido substituído por um clone. A crença era alimentada por vídeos e imagens manipuladas que circulavam nas redes sociais.
A situação revela uma dimensão mais profunda do fenômeno: mesmo depois de uma eleição reconhecida institucionalmente, conteúdos artificiais podem alimentar narrativas que contestam a legitimidade do resultado e prolongam disputas políticas que deveriam ter sido encerradas pelo voto.
A autora também acompanha como práticas de produção de conteúdo com inteligência artificial circulam entre diferentes ambientes, incluindo comunidades digitais, manifestações políticas e universos religiosos. Nesse percurso, ferramentas inicialmente utilizadas para criar músicas, vídeos e personagens podem ser incorporadas à propaganda e à mobilização eleitoral.
O livro mostra ainda como a inteligência artificial pode recompor acontecimentos passados, fabricar novas percepções sobre o presente e apresentar como realidade cenas de um futuro que ainda não aconteceu. A possibilidade de simular alianças, discursos e manifestações políticas amplia o poder de influência dessas tecnologias e impõe novos desafios à democracia.
Ao investigar a relação entre inteligência artificial e eleições, Kalil desloca o debate da simples identificação de conteúdos falsos para uma questão mais ampla: quem participa da produção da realidade política e quem deve responder por seus efeitos?
A obra discute como candidatos podem continuar circulando digitalmente por meio de vozes e imagens produzidas por terceiros, como eleitores podem ser representados por perfis sintéticos e como campanhas podem utilizar sistemas automatizados para construir narrativas e antecipar comportamentos.
No prefácio, o jornalista e escritor Thomas Traumann destaca a profundidade dessa transformação ao afirmar que a inteligência artificial já tem capacidade de interferir não apenas na decisão individual do voto, mas na própria fabricação da opinião pública.
O debate também ultrapassa as fronteiras brasileiras. Kalil relaciona a expansão das tecnologias de inteligência artificial às disputas políticas e econômicas que envolvem grandes empresas do setor, plataformas digitais e atores do Vale do Silício, colocando em discussão as relações entre poder tecnológico, concentração econômica e democracia.
Embora o bolsonarismo seja um dos principais campos de observação da pesquisa, a autora ressalta que a política sintética não pertence exclusivamente a uma corrente ideológica. Seus efeitos dependem das relações em que essas tecnologias são utilizadas e podem tanto fortalecer projetos de concentração de poder quanto abrir possibilidades de participação e acesso a direitos.
Mais do que apresentar respostas definitivas, Política Sintética convida o público a compreender uma transformação que já está em curso. Afinal, se imagens, vozes e discursos podem ser produzidos por sistemas artificiais, reconhecer quem fala, quem autoriza, quem representa e quem responde por uma ação política torna-se uma questão fundamental para o futuro das eleições.
O lançamento será realizado em formato de bate-papo, com a participação de Michel Alcoforado, antropólogo, escritor e pesquisador das relações entre cultura, comportamento e sociedade.
O encontro propõe aproximar o debate acadêmico das questões que atravessam o cotidiano de eleitores, jornalistas, profissionais de comunicação e usuários das plataformas digitais. Entre os temas estão as mudanças nas campanhas eleitorais, a circulação de conteúdos artificiais, a construção da opinião pública e os desafios de preservar a participação democrática diante da expansão da inteligência artificial.
Publicado pela Diálogos Editora, o livro integra a coleção Diálogos Urgentes, dedicada a temas contemporâneos que exigem reflexão pública e debate qualificado.
Isabela Kalil é antropóloga e coordenadora do Observatório da Extrema Direita. Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio doutoral na Columbia University, realizou pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisa extrema direita, bolsonarismo, gênero, desinformação e os impactos das tecnologias sobre a política e a democracia. Seu trabalho acompanha as transformações das mobilizações políticas e das plataformas digitais, com atenção especial às relações entre tecnologia, comportamento e participação política.
Michel Alcoforado é antropólogo, professor, palestrante e escritor. Doutor em antropologia do consumo, é fundador do Grupo Consumoteca, onde pesquisa comportamento, consumo e transformações culturais. É colunista da CBN e apresentador do podcast É Tudo Culpa da Cultura. Autor dos livros De Tédio, Ninguém Morre e Coisa de Rico, investiga as relações entre cultura, comportamento e sociedade.
SOBRE A DIÁLOGOS EDITORA – A Diálogos Editora nasce da experiência acumulada pela Ação Educativa ao longo de mais de 30 anos de produção e circulação de conhecimentos comprometidos com a educação, a cultura, a democracia e os direitos humanos. Com um catálogo dedicado às questões emergentes, urgentes e insurgentes do nosso tempo, a editora busca ampliar o acesso ao conhecimento, diversificar as vozes presentes no debate público e criar espaços de escuta, troca e reflexão. Seus livros são pontos de partida e de encontro para dialogar sobre os assuntos do mundo com todo mundo.
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Lançamento do livro Política Sintética — Como a inteligência artificial transforma os políticos, as eleições e a democracia?
Informações sobre a publicação:contato@dialogoseditora.org.br
(Assessoria de Imprensa)
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