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*Por Rodolfo Moreira Hojda dos Santos
Artigo: A agenda pública não se organiza apenas pela gravidade dos problemas. A agenda pública se organiza por linguagem. Em certos momentos, um mesmo fenômeno passa a ser nomeado de outro modo, enquadrado por novas categorias e reposicionado em circuitos de financiamento e reputação. O que se altera é o regime de classificação que define o que será reconhecido como prioridade, o que será considerado financiável e o que terá espaço no debate.
Esse movimento tem um componente estrutural. A sociedade de mercado não produz apenas bens; produz também obsolescência. Linguagens e prioridades se substituem com frequência, enquanto parte dos problemas demanda tempo longo e continuidade. Anthony Downs descreveu esse padrão ao observar que a atenção pública se concentra em um tema por um período e, em seguida, migra para outro, mesmo quando a questão permanece sem solução.
Quando essa dinâmica incide sobre o terceiro setor, instala-se um desencontro de tempos. Diversos problemas requerem presença, coordenação com serviços públicos, manutenção de equipe e rotinas estáveis. Ainda assim, recursos e reconhecimento tendem a acompanhar o que está mais visível e o que é mais simples de apresentar no vocabulário dominante do período. A disputa, portanto, não se limita a orçamento. A disputa envolve enquadramento: a capacidade de tornar o trabalho reconhecível nas categorias vigentes de decisão e financiamento.
A sigla ESG ilustra com clareza como um vocabulário pode operar como balizador. ESG é um conjunto de critérios usado para avaliar práticas ambientais, sociais e de governança e, em muitos ambientes, ESG orienta decisões de investimento, parceria e reputação. À medida que esse repertório se consolida, cresce a demanda para que organizações demonstrem aderência por meio de políticas, indicadores e relatórios. Esse movimento pode elevar transparência e governança, mas tende a favorecer aquilo que se traduz bem em padrões formais de conformidade, o que nem sempre coincide com transformação. A crítica registrada na Stanford Social Innovation Review é que esse tipo de critério não equivale a impacto e, quando as duas coisas se confundem, a capacidade de reportar práticas pode ocupar o espaço da real transformação.
A mesma lógica também opera fora do universo dos critérios formais. Em vez de balizar decisões por métricas, o próprio ciclo de atenção pública se reorganiza: certos assuntos ganham centralidade, reordenam prioridades e, algum tempo depois, cedem lugar a outros temas, ainda que o problema permaneça. A atenção à população em situação de rua evidencia esse movimento. Em determinados períodos, o tema adquire densidade, mobiliza espaços de decisão e redefine urgências. Em seguida, o tema perde centralidade e o tema retorna ao lugar de um assunto conhecido, mesmo que a realidade persista ou se agrave. Outras agendas assumem proeminência e reordenam o foco público; não obstante, parte dessas agendas também é relevante. O ponto é a alternância: a atenção se desloca, enquanto o problema demanda continuidade.
Essa alternância é relevante porque, nesse caso, não se trata de uma pauta resolvida por campanhas ou intervenções pontuais. Trata-se de um problema sistêmico, que requer políticas públicas intersetoriais, coordenação continuada, infraestrutura, recursos humanos e participação regular da sociedade civil. Se o tema perde centralidade antes que esses arranjos se consolidem, a discussão tende a reaparecer mais adiante sob outro enquadramento, com parte dos obstáculos ainda presentes.
Esse movimento repercute nas organizações. À medida que reconhecimento e financiamento se alinham ao vocabulário dominante, a capacidade de traduzir o trabalho nesse idioma se torna um ativo. Ser legível, nesse contexto, significa apresentar o que se faz de modo aceito por quem financia e decide. Esse movimento induz ajustes de linguagem e formato e, em alguns casos, esse movimento influencia o desenho das ações, de modo a manter aderência ao que é reconhecido como prioridade.
A literatura sobre filantropia discute como repertórios se difundem e redefinem expectativas sobre boa prática, impacto e inovação. Phillips e Jung analisam esse movimento, mostrando que, quando um repertório se torna dominante, o repertório passa a orientar o que é reconhecido, financiado e replicado. Em paralelo, estudos sobre “projectificação” apontam como a lógica de projetos pode afetar autonomia e missão quando financiamento e governança passam a operar por ciclos e formatos reiterados.
Nesse arranjo, relevância pública funciona como um mercado de categorias: o que é facilmente absorvido pelas classificações dominantes tende a ganhar espaço, mesmo que o problema não tenha sido solucionado ou mitigado. O que varia com mais frequência é a moldura pela qual ele é percebido e priorizado. E, quando essa moldura passa a pesar mais do que o problema, parte do campo tende a se organizar em torno do que circula melhor, e não do que é mais necessário.
*Rodolfo Moreira Hojda dos Santos é gestor de operações e projetos, formado em Sociologia pela FESP, com pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios, MBA em Gestão de Projetos pela FGV e mestrado profissional em Gestão e Políticas Públicas pela FGV.
Downs, Anthony. Up and Down with Ecology: The “Issue-Attention Cycle”. The Public Interest, 1972.
Foroughi, Jaclyn. ESG Is Not Impact Investing and Impact Investing Is Not ESG. Stanford Social Innovation Review, 2022.
Phillips, Susan D.; Jung, Tobias. A New ‘New’ Philanthropy: From Impetus to Impact (Introdução). 2016.
Löfström, M. Projectified collaboration between nonprofit organizations and local authorities…, 2025.
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