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*Por Aline Odara, fundadora e diretora-executiva do Agbara
Durante muito tempo, o debate econômico brasileiro colocou o crescimento no centro da discussão sobre desenvolvimento. A ideia de que uma economia maior necessariamente produziria mais oportunidades e melhores condições de vida ajudou a orientar diferentes projetos para o país.
Mas existe uma pergunta que não pode ser deixada para depois: quem está conseguindo acessar os resultados desse crescimento?
O Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisa e Memória da Mulher Negra do Agbara (NUPEMN), ajuda a responder essa questão. Lançado em maio de 2026, durante o Fórum Econômico de Mulheres Negras, o estudo analisa indicadores de renda, trabalho, educação e condições de moradia entre 2016 e 2023. Co-realizado com a ActionAid e com o apoio do Grupo Fundação Volkswagen, a pesquisa mostra que houve melhora geral, mas a distância entre os grupos não diminuiu de maneira significativa.
O recorte também precisa ser lido à luz do peso que esse grupo tem na sociedade brasileira. Segundo o IBGE, mulheres pretas ou pardas representavam 28,7% da população brasileira em 2024, a maior parcela quando considerados conjuntamente sexo e cor ou raça. Ainda assim, são elas que aparecem na última posição do IJER em toda a série histórica analisada.
Esse dado deveria ser suficiente para colocar as condições econômicas das mulheres negras no centro da discussão sobre desenvolvimento. Mas isso ainda não acontece.
Em 2016, o gap entre homens brancos e mulheres negras era de aproximadamente 0,18 ponto. Em 2018, caiu para 0,16. Depois, oscilou e permaneceu próximo desse patamar. Em 2023, homens brancos registraram 0,69 no índice, enquanto mulheres negras ficaram em 0,53, abaixo da média nacional.
Não basta perguntar se a economia está crescendo nem apenas quanto ela está crescendo. Precisamos perguntar para quem ela está crescendo e quem consegue transformar esse avanço em renda, oportunidades, autonomia e melhores condições de vida.
Crescimento e equidade, portanto, não são a mesma coisa. E os dados do IJER mostram que uma melhora geral dos indicadores não significa, necessariamente, uma mudança na estrutura das desigualdades. Entre 2016 e 2023, os grupos avançaram, mas a distância entre homens brancos e mulheres negras permaneceu praticamente a mesma.
Em 2023, o índice dos homens brancos estava cerca de 18% acima da média nacional, enquanto o das mulheres negras estava aproximadamente 11% abaixo.
Isso significa que crescimento e equidade não são a mesma coisa. E essa distinção deveria estar no centro das discussões sobre economia e desenvolvimento, especialmente quando se fala em futuro.
Se os dados mostram que a distância permanece, apesar da melhora dos indicadores, a questão é: o que precisa mudar nas políticas públicas para que essa desigualdade também mude?
É justamente aí que o debate eleitoral precisa entrar. Os resultados das eleições também ajudam a evidenciar que a desigualdade não está apenas no acesso à renda, ao trabalho e às oportunidades, mas também nos espaços de representação e decisão política.
O caso de Benedita da Silva ajuda a ilustrar essa realidade. Primeira mulher negra eleita vereadora do Rio de Janeiro, ex-governadora do estado e deputada federal por diferentes mandatos, Benedita é uma das principais referências da representação política de mulheres negras no país. Em 2026, ela não foi eleita para o Senado pelo Rio de Janeiro. O resultado recoloca uma questão importante: quem está ocupando os espaços onde são definidas as políticas públicas e quais grupos permanecem sub-representados nesses espaços?
Em um cenário em que crescimento econômico, geração de emprego, aumento da renda e desenvolvimento estiveram no centro das discussões eleitorais, a presença de mulheres negras nos espaços de decisão também precisa fazer parte dessa conversa. Afinal, se elas representam 28,7% da população brasileira, por que ainda estão tão distantes dos espaços em que se definem os rumos econômicos e sociais do país?
Mulheres pretas e pardas representam 28,7% da população brasileira e formam o maior grupo individual quando considerados conjuntamente sexo e cor ou raça. Ainda assim, suas condições econômicas permanecem na última posição do IJER. O dado coloca uma questão que não deveria ser ignorada por nenhum projeto de desenvolvimento: como enfrentar uma desigualdade que permanece praticamente inalterada?
Se os dados mostram que os indicadores melhoraram, mas a distância entre homens brancos e mulheres negras permaneceu praticamente a mesma, o que está sendo proposto para mudar essa realidade? E, diante dos resultados eleitorais, quem estará nos espaços de decisão para construir essas mudanças?
A desigualdade econômica e a desigualdade de representação não podem ser tratadas como questões separadas. Quando mulheres negras permanecem na última posição do IJER e seguem sub-representadas nos espaços de poder, é preciso questionar quais escolhas políticas estão sendo feitas e para quem.
Até quando a equidade será tratada como uma etapa posterior ao crescimento?
O desafio não é escolher entre crescimento e equidade. É reconhecer que não há desenvolvimento quando uma parcela tão significativa da população permanece distante da renda, das oportunidades e dos espaços de decisão.
*Aline Odara é cientista social, pedagoga e formada pelos programas executivos Power, Innovation and Leadership for System Change: Delivering Social Impact at Scale da Universidade de Harvard (EUA | 2025). É idealizadora e Diretora Executiva do Fundo Agbara, o primeiro fundo de Mulheres Negras no Brasil. Atua como Conselheira da organização Clarice, Minha Campinas e do projeto BAP, da BMW Foundation.
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