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O repasse de recursos para organizações da sociedade civil alcançou R$ 1,3 bilhão em 2024, o maior volume já registrado pelo Censo GIFE. Apesar do crescimento, a composição dos espaços de decisão das instituições financiadoras e a diversidade das organizações apoiadas continuam entre os desafios da filantropia brasileira.
Os dados fazem parte do Censo GIFE 2024–2025, divulgado em abril de 2026. A pesquisa contou com 138 organizações participantes, correspondentes a 84% das associadas ao GIFE em 2024. O levantamento é bienal, quantitativo, autodeclaratório e de participação voluntária, com informações referentes majoritariamente ao ano de 2024.
O volume total de investimento social privado chegou a R$ 5,8 bilhões em 2024, o segundo maior da série histórica, atrás apenas de 2020, período marcado pela pandemia de Covid-19. Desse montante, R$ 1,3 bilhão foi destinado a organizações da sociedade civil por meio de repasses diretos, modalidade conhecida como grantmaking.
A proporção de organizações participantes que destinam parte de seus orçamentos a iniciativas de terceiros também cresceu. Passou de 64%, em 2022, para 72%, em 2024. Em termos de volume financeiro, os repasses aumentaram de R$ 350 milhões, em 2016, para R$ 1,3 bilhão em 2024.
Quem decide quais organizações recebem os recursos?
Além dos valores destinados às organizações sociais, o Censo apresenta informações sobre a composição dos conselhos deliberativos das instituições participantes, responsáveis por decisões estratégicas e pela governança dessas organizações.
Os dados mostram que 66% das posições nos conselhos são ocupadas por homens e 89% por pessoas brancas. A participação feminina passou de 27%, em 2014, para 34%, em 2024, um crescimento de sete pontos percentuais em dez anos. GIFE
O levantamento também evidencia a necessidade de ampliar a participação de pessoas negras, indígenas e de outros grupos historicamente sub-representados nos espaços de decisão.
A discussão sobre diversidade na governança se relaciona diretamente à forma como as prioridades de investimento são estabelecidas. A composição dos conselhos não determina, isoladamente, quais organizações recebem recursos, mas ajuda a compreender quem participa das decisões estratégicas das instituições financiadoras.
Organizações de base e distribuição dos investimentos
O crescimento dos repasses também levanta uma discussão sobre a diversidade das organizações beneficiadas. Em análise publicada pelo GIFE sobre os resultados do Censo, Maria Luiza Pinto, vice-presidente executiva de Sustentabilidade, Comunicação e Marca da Suzano, alertou para o risco de os recursos serem concentrados em organizações maiores e mais conhecidas pelos financiadores.
Na avaliação da executiva, ampliar a diversidade dos beneficiários é necessário para evitar que os investimentos continuem chegando às mesmas instituições, deixando iniciativas menores em segundo plano.
Cida Bento, fundadora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e conselheira do GIFE, também destacou a importância de fortalecer organizações de base e movimentos sociais que atuam historicamente na defesa de direitos. A especialista chamou a atenção para o risco de grandes empresas assumirem diretamente a execução de ações sociais em vez de apoiar organizações que já desenvolvem esse trabalho nos territórios.
O Censo, entretanto, não apresenta um detalhamento completo dos recursos distribuídos por porte, localização e perfil de todas as organizações beneficiadas. Portanto, os dados não permitem afirmar que pequenas organizações recebam menos recursos proporcionalmente ou que exista uma concentração comprovada dos repasses em determinadas regiões.
Educação permanece como principal área de investimento
Entre as áreas apoiadas pelas instituições participantes, a educação aparece na primeira posição. Segundo o levantamento, 67% das organizações respondentes investem em iniciativas de educação formal ou não formal.
O estudo também registra investimentos em desenvolvimento local, territorial e comunitário, inclusão produtiva, empreendedorismo e geração de renda. Na agenda de direitos, equidade racial mobilizou R$ 116 milhões, igualdade de gênero e direitos LGBTQIAPN+ somaram R$ 89 milhões, e inclusão de pessoas com deficiência recebeu R$ 26 milhões em 2024.
Os números mostram a dimensão dos recursos mobilizados pela filantropia institucionalizada e o crescimento do apoio direto às organizações sociais. Ao mesmo tempo, colocam em discussão a necessidade de ampliar a diversidade dos espaços de decisão e fortalecer iniciativas que atuam diretamente nos territórios.
Para as organizações da sociedade civil, compreender como os financiadores estabelecem suas prioridades, quais estratégias adotam e como estruturam os repasses é importante para ampliar o diálogo com o investimento social privado e identificar oportunidades de parceria.
(Redação ONG News)
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