Antes de doar, é preciso perguntar quem decide

Vozes do MCD
11 de setembro de 2026
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Por Diane Pereira Sousa, maranhense, Diretora de Estratégias e Parcerias do Instituto Formação e integrante do Movimento por uma Cultura de Doação

Tenho trabalhado há alguns anos com desenvolvimento territorial e, nesse percurso, uma questão passou a me incomodar: quem decide o que um território precisa?

 A pergunta aparece o tempo todo. Em reuniões, projetos, editais, diagnósticos. Muitas vezes, a resposta já está pronta antes de a conversa começar. O território é chamado para validar uma decisão que foi tomada em outro lugar.

Isso também acontece com a doação.

Falamos muito sobre quem doa, quanto doa, para qual causa e durante quanto tempo. Falamos menos sobre quem participa das escolhas feitas com aquele recurso. Para mim, essa é uma questão central quando pensamos em cultura de doação.

O Movimento por uma Cultura de Doação define cultura de doação como “um conjunto de comportamentos, símbolos e valores” relacionado ao compartilhamento voluntário de recursos privados em busca de uma sociedade justa, equitativa e sustentável. Essa definição me faz pensar na doação como uma relação. E toda relação envolve poder.

Quem tem o recurso costuma ter também alguma capacidade de definir prioridades. Quem recebe precisa, muitas vezes, adequar sua realidade à lógica de quem financia.

Isso não acontece necessariamente por má-fé. Acontece porque o dinheiro organiza relações. E porque ainda temos uma visão muito limitada sobre o que significa investir socialmente.

No trabalho com territórios, fui percebendo que uma comunidade conhece coisas que nenhum diagnóstico produzido de fora consegue registrar completamente. Sabe onde uma política pública não chega. Sabe quais lideranças conseguem mobilizar pessoas. Sabe quais conflitos precisam ser enfrentados antes de qualquer projeto funcionar. Sabe também o que já deu errado.

Quando esse conhecimento entra na decisão, o recurso encontra melhores condições para produzir mudança. Foi daí que comecei a pensar no território como uma infraestrutura de decisão. Não como cenário de um projeto, mas como espaço onde pessoas constroem capacidade para interpretar problemas, estabelecer prioridades e decidir sobre aquilo que afeta suas próprias vidas.

Essa perspectiva muda minha maneira de olhar para a doação. Um bom investimento social precisa considerar o que permanece quando o recurso acaba. Se uma iniciativa termina e ninguém no território ganhou mais capacidade de decidir, talvez tenhamos financiado uma atividade. Se as pessoas passaram a compreender melhor seus problemas, organizar respostas, negociar com diferentes atores e fazer escolhas coletivas, alguma coisa mais profunda aconteceu.

Por isso, acredito que a cultura de doação precisa discutir também confiança. Confiar é aceitar que quem vive determinado problema pode ter uma leitura melhor sobre ele. É admitir que o doador não precisa controlar todas as decisões para acompanhar a responsabilidade sobre o recurso. É construir relações nas quais escuta e prestação de contas possam existir juntas.

Tenho cada vez menos interesse em perguntar somente quanto dinheiro chega a um território. Quero saber o que esse dinheiro permite que as pessoas façam. O que elas passam a decidir. O que conseguem sustentar depois. E quem continua tendo voz quando o financiamento termina.

Talvez seja aí que a doação deixe de ser apenas uma transferência de recursos e passe a participar da construção de autonomia.

Declaração de uso de IA: usei uma ferramenta de inteligência artificial para fazer a correção ortográfica e normatização desse texto bem como análise de coesão.

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